quarta-feira, 10 de agosto de 2011

It takes one to (not) know one

[é preciso um para (não) conhecer um]

Animal escravo do homo sapiens

Diariamente, escuto a seguinte linha de raciocínio nas redes sociais.

"Atrás de cada crítico do nazismo, há um grande nazista enrustido. Atrás de qualquer crítico do racismo, há um racista que ainda não se aflorou. Entre os grandes críticos do especismo, estão os maiores especistas que já existiram. Atrás de cada vivisseccionista, está um grande amante e defensor do direito dos animais, no planeta. Todo machista violento e misógeno esconde uma sensibilidade aguçada acerca da alma e dos cuidados femininos. Pense nisso. Ele só bate em você porque ele te entende."

Obviamente que esse tipo de argumentação não funciona. Em casa de churrasqueiro, não há espeto de tofu - a menos que ele esteja de fato a caminho de uma nova visão de vida e/ou que não conheça realmente outros alimentos vegetarianos que não a soja. Na casa de um vegetariano, igualmente, não haverá cabeças de animais empalhados nas paredes - a menos que ele seja uma exceção (bizarra, diga-se de passagem).

É óbvio que, se tu olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo também olha para ti, como disse Nietzsche um dia. E quando lutamos com monstros, também há a chance de nos contaminarmos. A vida é contaminação, pura. Para limpar uma merda, é preciso sujar-se nela (ou sentir seu cheiro, ou olhá-la, estar em contato). Para resgatar alguém do inferno, igualmente, é preciso ir até lá - a menos que seu assovio seja tão forte para ultrapassar os gritos das almas penadas e a pessoa seja tão obediente quanto um cachorro (obediente). Mas depois você volta. Com marcas, porém volta.

O Batman conhece o Coringa, mas ele não quer ser o Coringa. Escolheu ser outra pessoa. "Somos o que fazemos". Advogados lidam com pessoas mentirosas todos os dias - alguns começam a lidar logo de manhã quando acordam e se encaram em frente ao espelho. Mas isso não significa necessariamente que precisam viver de mentira - a.k.a. Abraçar o capeta. Pode-se compreender - ou tentar compreender o outro lado - sem ser o outro lado. Pode-se também não julgar o outro lado, mas é difícil não julgar.

Tudo isso é pra dizer que quem critica (ou não entende, ou até agride) quem é diferente não necessariamente o faz porque quer ser esse diferente. Quem bate, explora ou machuca alguém, não faz "porque na verdade @ ama demais". Nunca ouvi um pedófilo dizendo: "Ah, eu amo tanto as criancinhas que eu as como." Já ouvi, entretanto, infelizes dizendo: "Ah, eu amo tanto os animaizinhos que eu os como. Em pedaços, fatiados, queimados. Quanto mais sangue, melhor." Em contrapartida, também escutei a seguinte frase: "Animais, se ama uns, por que mata outros?" O questionamento é interessante, porém, amar não é requisito para se respeitar as pessoas. As palavras podem ser abstratas. Amor pode significar muitas coisas. Para alguns, o amor pode ser o sentido da vida. No fundo, acho que sem amor ninguém vive.

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