terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Não, não sou amigo(a) dos animais!

Les Cahiers antispécistes
n°1 (outubro 1991)

LAIR publications
Editors Norma Benney, Gisèle Mauras
Traduzido em francês pelo "Collectif Parisien Anti-Vivisection"
Tradução: Anna Cristina Reis; revisão: Gabriela Chamoulaud


Esse texto foi publicado há muitos anos atrás na revista Le pigeon voyageur, sob a assinatura acima. O grupo LAIR, que parece não existir mais, se definia, até onde sabemos, como «gays e feministas interessados pelos direitos dos animais». Infelizmente não sabemos quem era o «Collectif Parisien Anti-Vivisection» que declara, ao lado deste artigo: «Queremos falar pelos que não são representados, pelos supliciados. O maior denominador comum para todos é a expressão de uma ética que englobe os mais fracos. A questão não interessa ninguém pois trata-se de um não-poder, de uma não-palavra...»

Estou cansada de escutar as pessoas dizerem – assim que ficam sabendo que sou vegana e anti-vivisseccionista – «Oh! É óbvio que você é amiga dos animais». Se eu protestasse pelos paquistaneses que são martirizados pelo partido de direita, não imagino que estas mesmas pessoas diriam com a mesma complacência: «Oh! É óbvio que você sempre gostou dos paquistaneses».

Opor-se à exploração dos animais e à opressão dos «não humanos» nada tem a ver com o fato de ser «amigo dos animais». Há centenas e milhares de amigos de animais por aí. Os restaurantes com rodízios de carne estão cheios deles. As lojas que vendem artigos de pele, também. Os domadores dos circos fazem poses afetuosas com os animais que domam com descargas de eletricidade e bastões de ferro.

O chofer de caminhão que transporta os animais para os abatedouros de um outro país e os deixa três dias sem água e sem comida, até que os animais se comam mutuamente, volta correndo para casa, para sua mulher e seu gatinho. O vivisseccionista, cansado após uma tarde de experiências feitas em um animal não anestesiado, volta para casa e acaricia seu cão...

Não, eu não amo particularmente os animais!

E nem sei se ter um em casa seja uma boa idéia. Pois a sociedade protetora dos animais «Battersea Dogs Home» sacrifica cem cães por semana, cães que foram encontrados abandonados nas ruas – abandonados, sem dúvida, pelos amigos dos animais. As pessoas que se declaram amigas dos animais são, habitualmente, pessoas muito sensíveis. Quando você quer lhes mostrar fotos de vivissecção, elas replicam invariavelmente: «Oh, não! Eu não posso nem ver isso. Isso acabaria comigo». Essas pessoas preferem não saber. Escutamos vagamente falar de um cara que conheceu uma outra pessoa que foi visitar um abatedouro uma vez e que não pôde dormir durante uma semana ou que não pôde mais comer carne durante quinze dias. Mas «é uma experiência terrível, e eu preferiria nem tomar conhecimento». É possível visitar um abatedouro. Mas não existe a mesma oportunidade de visitar um laboratório de vivissecção. Os vivisseccionistas tomam suas precauções quanto a isso. Nos laboratórios onde as experiências são feitas nos animais, as portas estão fechadas para a polícia, para os deputados nos quais você vota, para os representantes das entidades de proteção animal, para o público, para os amigos dos animais, para todo mundo. Assim, os animais podem ser envenenados, seus olhos arrancados, tornarem-se loucos, serem cortados em pedaços (ainda vivos e conscientes), trepanados, batidos, comprimidos para a satisfação e a curiosidade dos vivisseccionistas. O público não está lá para ver.

Para mim, «amigos dos animais» é um termo pejorativo, degradante, ao qual a gente se refere como quando se refere aos militantes feministas. Isso subentende uma predisposição por um mundo de peles confortáveis e voluptuosas. Um termo que nos faz pensar em uma menininha de um livro de contos infantis que joga migalhas de pão na neve para alimentar os pássaros no inverno.

A liberação do animal ainda deve nascer e esse movimento não tem nada a ver com os «amigos dos animais». As pessoas interessadas pelo movimento de liberação animal não possuem obrigatoriamente animais. Nós não conversamos com os animais através das grades de gaiolas. Não compramos fotos de gatinhos com a cabecinha para fora de uma bota. E nunca proclamamos sorrindo que somos amigos dos animais, nos desculpando assim, de toda ação para combater o chauvinismo humano que é universal, infinito e pouco detectado por estar tão presente em nossa vida cotidiana.

Os animais são

A última das minorias,

Judeus perpétuos

Em um Estado perpetuamente nazista;

Negros perpétuos

Em uma perpétua África do Sul;

Mulheres perpétuas

Em uma perpétua Arábia poligâmica.


Fonte: Les Cahiers antispécistes

sábado, 27 de dezembro de 2008

Calvin and Hobbes



- Veja! Eu peguei uma borboleta!
- Se pessoas pudessem colocar arco-íris no zoológico, elas o fariam.

http://www.gocomics.com/calvinandhobbes/

Greasemonkey



Greasemonkey é uma extensão para o navegador de web Mozilla Firefox, que modifica a exibição das páginas de determinados sites, mudando o layout, adicionando ou retirando botões e formulários etc. Ele funciona com base em scripts na linguagem JavaScript, que são instalados pelo usuário.

Existem scripts para todos os gostos, dos mais simples aos mais sofisticados. Entre os scripts em língua portuguesa, os mais populares são os que funcionam com o Orkut, site de relacionamentos muito popular no Brasil.

fonte: Wikipedia

"[...] As Greasemonkey scripts are persistent, the changes made to the web pages are executed every time the page is opened, making them effectively permanent for the user running the script.

Greasemonkey can be used for adding new functions to web pages (for example, embedding price comparison in Amazon.com web pages), fixing rendering bugs, combining data from multiple webpages, and numerous other purposes. Well-written Greasemonkey scripts can integrate changes so well that their additions appear to be natural parts of the web page. [...]"

fonte: en.Wikipedia


Links interessantes:

http://www.greasespot.net/
- site oficial / download
http://userscripts.org/scripts/show/38985
- baixe arquivos do rapidshare automaticamente as a free user (sem a necessidade de espera)
http://userscripts.org/scripts/show/39280
- adiciona link ao lado do tópico p/ ir direto ao último post
http://userscripts.org/scripts/show/39402
- adiciona função de quote, barra de formatação, resposta rápida, assinatura e chat em tópicos
http://userscripts.org/scripts/show/39411
- muda estilo do orkut (fonte, cor, tamanho, imagem de fundo) segundo a sua preferência
http://userstyles.org/styles/10005
- minimalistic background change for orkut
(melhor ainda, pq a imagem fica fixa e não quebra)
para mudar o fundo, vá a 'background-image' dentro do script e troque a imagem


Complementos p/ Firefox:
os-melhores-complementos-do-firefox.html
firefox-3-melhores-complementos-e-add-ons-do-ff3.html
the-best-50-firefox-add-ons-for-web-developers/

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Absorventes Mozilla ®

Depois do navegador,
o mais novo sucesso...



√ prático

√ leve
√ seguro
√ always free


"E agora com abas!"

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A Ironia do Ferro (Iron's Irony)

Pode fortalecê-lo ou matá-lo

Por Christopher Wanjek
LiveScience's Bad Medicine Columnist
27 February 2007 08:54 am
tradução não-oficial: Leandro Costa


Qualquer adulto que tenha crescido assistindo a força do Popeye abrir uma lata de espinafre lhe dirá que o ferro o faz forte. Tão endoutrinada é essa idéia que os doutores percebem ser difícil ensinar ao público que muito ferro na verdade contribui para doenças cardíacas, câncer, diabetes e outros males potencialmente fatais.

Quem diria que um marinheiro boca-suja, fumador-de-cachimbo e brigão poderia ser um pobre modelo exemplar de saúde?

A última fatia das más notícias para os carnívoros amantes-do-ferro vem de pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Kentucky (University of Kentucky Medical Center) que descobriram que o excesso de ferro heme, o tipo que se encontra na carne, causa cálculos biliares. Eles publicaram esse massivo estudo de 16 anos com aproximadamente 45.000 homens na edição de fevereiro do Jornal Americano de Nutrição Clínica (American Journal of Clinical Nutririon).

Eu sou Homem de Ferro


Baixo nível de ferro é de fato uma grande preocupação de saúde para bilhões de pessoas, principalmente em países em desenvolvimento. Baixos níveis de ferro na corrente sanguínea deixam o corpo cansado e vulnerável a doenças. Esse é um golpe esmagador para a produtividade de um trabalhador, também, e contribui para o ciclo de pobreza no qual trabalhadores de menor produtividade ganham menores salários e assim não podem alimentar a si mesmos nem a suas famílias.

Baixo nível de ferro também é uma preocupação para mulheres em idade fértil porque elas perdem sangue, e portanto ferro, durante seus períodos mensais. Mulheres na média de 15 a 50 anos necessitam duas vezes mais ferro do que homens.

A maioria dos homens do Estados Unidos não precisam de ferro adicional, mas eles não conseguem escapar a isso. Apenas duas porções de carne vermelha por semana seria o suficiente para manter o corpo de um homem adulto (e de uma mulher na pós-menopausa) com o ferro necessário. Ainda assim muitos homens comem carne todos os dias, frequentemente em cada refeição. Todo cereal está fortificado com ferro. E alguns homens até obtêm mais ferro, sem saber, quando tomam um multi-vitamínico.

O problema é que homens, e mulheres em pós-menopausa, não tem um meio natural de eliminar ferro. O corpo faz um decente trabalho de absorver ferro da comida apenas quando precisa, mas a dieta muita rica em ferro sobrecarrega esse sistema regulatório. O ferro começa a se acumular no organismo.

O produtor de radicais livres

O ferro heme do marisco, fígado e carne vermelha é mais prontamente absorvido pelo corpo do que o ferro não-heme dos vegetais.

De fato, espinafre não é particularmente uma boa fonte de ferro porque o ácido oxálico do espinafre impede a absorção do ferro.

O efeito do ferro a nível molecular no corpo é bem conhecido. O ferro produz radicais livres, os quais são moléculas reativas que atacam as paredes celulares e o DNA, causando doenças. Mais ferro significa mais dano e mais doença. Ferro também suprime o sistema imunológico, promove crescimento de células cancerígenas e aciona a produção de plaquetas sanguíneas, por exemplo, aumentando o risco de doenças cardíacas e derrame.

Um simples exame de sangue pode determinar se você tem muito ferro, uma medida de serum ferritin.

Medicina medieval ao resgate

Doutores dizem que a maioria dos homens, e mulheres na pós-menopausa, não precisam de ferro a mais, então aqueles interessados em tomar multi-vitamínicos diários deveriam procurar um que seja livre de ferro. Entretanto, se você quiser não precisa necessariamente desistir da carne vermelha e marisco, as fontes mais generosas de ferro heme, para reduzir a reserva de ferro do seu corpo.*

Sangria, mais conhecido hoje por doação de sangue (?), é um excelente modo de eliminar ferro. Dr. Leo Zacharski, diretor do Programa de Vigilância do Ferro, do Centro de Câncer Norris Cotton, da Universidade Dartmouth, diz que indivíduos saudáveis podem doar sangue duas ou três vezes anualmente, para sua própria saúde e a saúde do receptor.

A Secretaria de Suplementos Dietéticos do Instituto Nacional de Saúde fornece uma boa inspeção geral da complicada questão do ferro aqui.

http://www.livescience.com/health/070227_bad_iron.html

* Boas fontes de ferro (e cálcio) também são vegetais folhosos como a couve, brócolis, folha de mostarda, agrião, folhas de cenoura, beterraba e couve flor, e leguminosas como os feijões, ervilhas, lentilhas e soja.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Super Mario Ultra Hard

Sabe o mário? Então...



Esse jogo existe, chama-se Super Mario World (Kaizo Edition). Katzo Kaizo vem do japonês e significa: hackeado, modificado, reorganizado. Se você tiver um emulador p/ Super Nintendo, baixe o rom por aqui e boa diversão!

Tradução dos textos*:

Super Mario World (Kaizo Edition) Intro + 1-1
Intro: "Ah, não. Essa mulher denovo?!"
Yoshi's House: "Vá, rápido, sem parar! -Super Dragon Yoshi-"
1-1: "Por favor faça o seu melhor para zerar a primeira fase"


Super Mario World (Kaizo Edition) 1-S
"Caixas amarelas apareceram. É só isso."

Super Mario World (Kaizo Edition) 1-2
"Você deve apertar o botão amarelo antes de vir pra cá"

Super Mario World (Kaizo Edition) 1-3
"Yoshi é importante. Você precisa avançar enquanto o alimenta"
"Obrigado, velho bigodudo! Muito obrigado!"


Super Mario World (Kaizo Edition) 1-4
"Eu tentei colocar um pouco de mistério. Não é nada pessoal!"

Super Mario World (Kaizo Edition) 2-1
Sem caixa(s)

Super Mario World (Kaizo Edition) 2-S
"Caixas vermelhas apareceram. O quê, só isso?! Ah bom"

Super Mario World (Kaizo Edition) S-1 (Star Road)
Super Mario World (Kaizo Edition) S-2 (Star Road)
Super Mario World (Kaizo Edition) S-3 (Star Road)
Super Mario World (Kaizo Edition) S-4 (Star Road)
Sem caixa(s)

Super Mario World (Kaizo Edition) S-5 (Bonus Area)
"Fases especiais todas zeradas! Muito obrigado por jogar até agora! Se você zerar essa fase, você pode ir para o 'outro mundo'"

Super Mario World (Kaizo Edition) 2-2
"Você está esgotado"

Super Mario World (Kaizo Edition) 2-3 (Bowser) + Credits
"Avance com toda sua bravura"


» Mais hacks do Mario

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Piadinha do Coringa

quer dizer, do "Batiman"



fonte: Comic Sans

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Quando eu era pequeno

Quando eu era pequeno a vida parecia ser maior ...
... será que eu cresci demais ou a vida que encolheu?

domingo, 14 de dezembro de 2008

Casa de ferreiro, espeto de pau



O perigo da ironia
é que posta em demasia
volta-se em quem a lançou

"So beware, and beware, and beware"

sábado, 13 de dezembro de 2008

Estado civil: casado cansado



<estado>

( ) Solteiro
( ) Casado
( ) Viúvo?
(x) Cansado

♪ "This little light o' mine, I'm gonna let it shine, Let it shine, let it shine, let it shine..." ♪

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Nu c/ a mãe no bolso

uma mãe na frente, outra atrás

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Desafio Geométrico



Observe a imagem acima e veja as duas figuras maiores de formato triangular e tamanho idêntico. Se todas as figuras menores também possuem o mesmo tamanho e são idênticas, de onde surgiu o quadrado?

domingo, 7 de dezembro de 2008

Passeio Socrático

texto de Frei Betto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes, etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população nos submete ao consumo de símbolos.

O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais ao manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós" capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, têm alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuamos o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife.

Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista, a gata borralheira transforma-se em Cinderela.

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.

Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de troca, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.

"Nada poderia ser maior que a sedução" diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático, respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Metalinguagem da alma

algumas palavras sob(re) as palavras

"Les mots prennent toujours la couler des actions ou des sacrifices qu'ils suscitent" / as palavras ganham a cor das ações ou sacrifícios que elas carregam. (CAMUS, Albert. Lettres à un ami allemand)

E no princípio era o Verbo...


(Kim Krizan, roteirista)

"Creation seems to come out of imperfection. It seems to come out of a striving and a frustration. And this is where I think language came from. I mean, it came from our desire to transcend our isolation and have some sort of connection with one another. And it had to be easy when it was just simple survival. Like, you know, "water." We came up with a sound for that. Or "Saber-toothed tiger right behind you." We came up with a sound for that. But when it gets really interesting, I think, is when we use that same system of symbols to communicate all the abstract and intangible things that we’re experiencing. What is, like, frustration? Or what is anger or love? When I say "love," the sound comes out of my mouth and it hits the other person’s ear, travels through this Byzantine conduit in their brain, you know, through their memories of love or lack of love, and they register what I’m saying and they say yes, they understand. But how do I know they understand? Because words are inert. They’re just symbols. They’re dead, you know? And so much of our experience is intangible. So much of what we perceive cannot be expressed. It’s unspeakable. And yet, you know, when we communicate with one another, and we feel that we’ve connected, and we think that we’re understood, I think we have a feeling of almost spiritual communion. And that feeling might be transient, but I think it’s what we live for."

Tradução:

A criação parece vir da imperfeição. Parece ter vindo de um anseio e de uma frustração. É daí, eu acho, que veio a linguagem. Quero dizer, veio do nosso desejo de transcender nosso isolamento e ter algum tipo de ligação com os outros. Devia ser fácil quando era só uma questão de mera sobrevivência. "Água". Criamos um som para isso. "Tigre atrás de você!" Criamos um som para isso. Mas fica realmente interessante, eu acho, quando usamos esse mesmo sistema de símbolos para comunicar tudo de abstrato e intangível que vivenciamos. O que é "frustração"? Ou o que é "raiva" ou "amor"? Quando eu digo "amor", o som sai da minha boca e atinge o ouvido de outra pessoa, viaja através de um canal labiríntico em seu cérebro através das memórias de amor ou de falta de amor. O outro diz que compreende, mas como sei disso? As palavras são inertes, são apenas símbolos. Estão mortas, sabe? E tanto da nossa experiência é intangível. Tanto do que percebemos é inexprimível. É indizível. E, ainda assim, quando nos comunicamos uns com os outros, e sentimos ter feito uma ligação, e pensamos ter sido entendidos, eu acho que temos uma sensação de quase comunhão espiritual. Essa sensação pode ser transitória, mas eu acho que é para isso que vivemos.

Love is a word / O amor é uma palavra



Sati: Are you from the Matrix?
Neo: Yes. No. I mean, I was.
Sati: Why did you leave?
Neo: I had to.
Sati: I had to leave my home too.
Rama-Kandra: Sati! Come here, darling. Leave the poor man in peace.
Sati: Yes, papa.

Rama-Kandra: I'm sorry, she is still very curious.
Neo: I know you.
Rama-Kandra: Yes, in the restaurant at the Frenchman's. I am Rama-Kandra. This is my wife Kamala, my daughter Sati. We are most honoured to meet you.
Neo: You're programs.
Rama-Kandra: Oh, yes. I'm the power plant systems manager for recycling operations. My wife is an interactive software programmer, she is highly creative.
Kamala: What are you doing here? You do not belong here.
Rama-Kandra: Kamala! Goodness, I apologize. My wife can be very direct.
Neo: It's okay. I don't have an answer. I don't even know where 'here' is.
Rama-Kandra: This place is nowhere. It is between your world and our world.
Neo: Who's the Trainman?
Rama-Kandra: He works for the Frenchman.
Neo: Why'd I know you were going to say that?
Rama-Kandra: The Frenchman does not forget and he does not forgive.
Neo: You know him?
Rama-Kandra: I know only what I need to know. I know that if you want to take something from our world into your world that does not belong there, you must go to the Frenchman.
Neo: Is that what you're doing here?
Kamala: Rama, please!
Rama-Kandra: I do not want to be cruel, Kamala. He may never see another face for the rest of his life.
Neo: I'm sorry. You don't have to answer that question.
Rama-Kandra: No. I don't mind. The answer is simple. I love my daughter very much. I find her to be the most beautiful thing I've ever seen. But where we are from, that is not enough. Every program that is created must have a purpose; if it does not, it is deleted. I went to the Frenchman to save my daughter. You do not understand.
Neo: I just have never...
Rama-Kandra: ...heard a program speak of love?
Neo: It's a... human emotion.
Rama-Kandra: No, it is a word. What matters is the connection the word implies. I see that you are in love. Can you tell me what you would give to hold on to that connection?
Neo: Anything.
Rama-Kandra: Then perhaps the reason you're here is not so different from the reason I'm here.


Tradução:

Sati: Você é da Matrix?
Neo: Sim. Não. Quer dizer, eu era.
Sati: Por que você saiu?
Neo: Eu precisei.
Sati: Eu também tive que abandonar meu lar.
Rama-Kandra: Sati! Venha cá, querida. Deixe o pobre homem em paz.
Sati: Sim, papai.

Rama-Kandra: Desculpe-me, ela é ainda muito curiosa.
Neo: Eu lhe conheço.
Rama-Kandra: Sim, do restaurante do Francês. Eu sou Rama-Kandra. Esta é minha esposa Kamala, minha filha Sati. Estamos muito honrados em conhecê-lo.
Neo: Vocês são programas.
Rama-Kandra: Oh, sim. Sim. Sou o gerenciador de operações de reciclagem do sistema de energia. Minha esposa é programadora de software interativo, ela é muito criativa.
Kamala: O que faz aqui? Não pertence a este lugar.
Rama-Kandra: Kamala! Peço desculpas. Minha esposa pode ser muito direta.
Neo: Tudo bem. Não tenho resposta. Eu nem mesmo sei onde é "aqui".
Rama-Kandra: Isto não é lugar nenhum. Fica entre o seu mundo e o nosso.
Neo: Quem é o Homem do Trem?
Rama-Kandra: Ele trabalha para o francês.
Neo: Por que eu já sabia que você ia dizer isso?
Rama-Kandra: O francês não esquece e ele não perdoa.
Neo: Você o conhece?
Rama-Kandra: Só sei o que preciso saber. Eu sei que se você quiser levar algo do nosso mundo para o seu que não é de lá, você precisa ir ao francês.
Neo: É isso que estão fazendo aqui?
Kamala: Rama, por favor!
Rama-Kandra: Não quero ser cruel, Kamala. Talvez ele nunca mais veja
um rosto pelo resto da vida.
Neo: Sinto muito. Não precisa responder.
Rama-Kandra: Não, eu não me importo. A resposta é simples. Eu amo muito a minha filha. Eu a acho a coisa mais linda que já vi. Mas, no nosso mundo, isso não basta. Todo programa criado deve ter uma função. Se não tiver, é deletado. Procurei o francês para salvar minha filha. Você não entende.
Neo: É que eu nunca...
Rama-Kandra: ...ouviu um programa falar de amor?
Neo: É uma emoção humana.
Rama-Kandra: Não, é uma palavra. O que importa é a conexão que a palavra carrega.
Vejo que você está amando. Pode me dizer o que daria para manter essa conexão?
Neo: Qualquer coisa.
Rama-Kandra: Então talvez a razão pela qual está aqui não seja tão diferente da minha.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

José Saramago, Folha (28/11/08)

SABATINA FOLHA

JOSÉ SARAMAGO

A humanidade não merece a vida

Prêmio Nobel português se define como um "comunista hormonal" e afirma que os instintos servem melhor aos animais do que a razão aos homens

O ESCRITOR português José Saramago, 86, disse ontem que "a história da humanidade é um desastre" e que "nós não merecemos a vida". O autor, vencedor do Nobel de Literatura em 1998, participou de sabatina da Folha em celebração dos 50 anos da Ilustrada. O debate, assistido por 300 pessoas em um Teatro Folha lotado, teve como mediador o secretário de Redação do jornal Vaguinaldo Marinheiro. Participaram também, como entrevistadores, o crítico Luiz Costa Lima, a repórter da Ilustrada Sylvia Colombo e Manuel da Costa Pinto, colunista do caderno.

Da Reportagem Local

HUMANIDADE

A história da humanidade é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz. Se ainda fosse só a guerra, em que as pessoas se enfrentam ou são obrigadas a se enfrentar... Mas não é só isso. Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar o outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto. Se fizermos um cálculo de quantos delinqüentes vivem no mundo, deve ser um número fabuloso. Vivemos na violência. Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras -no plano privado e no plano público.


MARXISMO HORMONAL

Desde muito novo orientei-me para a consciência de que o mundo está errado. Não importa aqui qual foi o grau da minha militância todos esses anos. O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que se esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa idéia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista.


CRISE ATUAL

Marx nunca teve tanta razão quanto agora. O trabalho constrói, e a privação dele é uma espécie de trauma. Vamos ver o que acontece agora com os milhões de pessoas que vão ficar sem emprego. A chamada classe média acabou. Ou melhor: está em processo de desagregação. Falava-se em dois anos [para a recuperação da economia depois da crise financeira]; agora já se fala em três. Veremos se Marx tem ou não razão.


DEUS E BÍBLIA

Por que eu teria de mudar [a concepção de Deus após a doença]? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus não existe. Salvo na cabeça das pessoas, onde está o diabo, o mal e o bem. Inventamos Deus porque tínhamos medo de morrer, acreditávamos que talvez houvesse uma segunda vida. Inventamos o inferno, o paraíso e o purgatório. Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle, não tanto das almas, porque à igreja não importam as almas, mas dos corpos. O sonho da igreja sempre foi nos transformar em eunucos. A Bíblia foi escrita ao longo de 2.000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos...


RELAÇÃO COM PORTUGAL

Espalham por aí idéias sobre minha relação com meu país que não estão corretas. Saímos [Saramago e sua mulher, Pilar] de Lisboa [para a ilha de Lanzarote] em conseqüência de uma atitude do governo, não do país nem da população. Mas do governo, que não permitiu que meu livro ["O Evangelho Segundo Jesus Cristo"] fosse inscrito num prêmio da União Européia. Nunca tive problemas com o meu país, mas com o governo, que depois não foi capaz de pedir desculpas. Nisso, os governos são todos iguais, dificilmente pedem desculpas. Fomos para lá e continuamos pagando impostos em Portugal. Agora temos duas casas. Mudei de bairro, porque o vizinho me incomodava. E o vizinho era o governo português.


ACORDO ORTOGRÁFICO

Em princípio, não me parecia necessário. De toda forma, continuaríamos a nos entender. O que me fez mudar de opinião foi a idéia de que, se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única. Se Portugal tivesse 140 milhões de habitantes, provavelmente teríamos imposto ao Brasil a nossa grafia. Acontecem que os 140 milhões estão no Brasil, e o Brasil tem mais presença internacional. Perderíamos muito com a idéia de que o português é nosso, nós o tornaríamos uma língua que ninguém fala. Quando acabou o "ph", não consta que tenha havido uma revolução.


LITERATURA BRASILEIRA

Houve um tempo em que os autores brasileiros estavam presentes em Portugal, e em alguns casos podíamos dizer que conhecíamos tão bem a literatura brasileira quanto a portuguesa. Graciliano Ramos, Jorge Amado, os poetas, como João Cabral [de Melo Neto], Manuel Bandeira, essa gente era lida com paixão. Para nós, aquilo representava a voz do Brasil. Agora, que eu saiba, não há nenhum escritor brasileiro que seja lido com paixão em Portugal. Culpo a mim, talvez, por não ter a curiosidade. Mas também não temos a obrigação de descobrir aquilo que nem sabemos se existe.


LEITOR

O leitor me importa só depois que escrevi. Enquanto escrevo, não importa, porque não se escreve para um leitor específico. Há dois tempos, o tempo em que o autor não tinha leitores e o tempo em que tem. Mas a responsabilidade é igual, é com o trabalho que se faz. Agora, eu penso nos leitores quando recebo cartas extraordinárias. É um fenômeno recente. Ninguém escreveu a Camões, mas hoje há essa comunicação, essa ansiedade do leitor.



"Em nome de todos os brasileiros, obrigada por existir", disse alto, ao final da sabatina, uma integrante da platéia, enquanto Saramago terminava de falar.