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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Carnívoros Agnósticos e o Aquecimento Global: Por Que Ambientalistas Vão Atrás do Carvão e Não das Vacas

Por James McWilliams
11/16/2011

Tradução: Leandro Loan

Não há uma única pessoa que fez mais para combater a mudança climática do que Bill McKibben. Através de livros densos, contribuições ubíquas em revistas e jornais, e, o mais notável, a fundação da 350.org (uma organização internacional não-lucrativa dedicada a lutar contra o aquecimento global), McKibben tem comprometido sua vida a salvar o planeta. Por toda a paixão abastecendo seus esforços, no entanto, há algo ainda estranhamente confuso em sua abordagem para reduzir emissões de gás de efeito estufa: nem ele, nem a 350.org promoverão ativamente uma dieta vegana.

Dada a natureza de nosso atual discurso sobre a mudança climática, essa omissão pode não parecer um problema. Veganos ainda são considerados uma espécie de “out there”, um grupo marginalizado de ativistas pelos direitos dos animais com pele pastosa e problemas protéicos. Entretanto, como um recente relatório do World Preservation Foundation confirmou, ignorar o veganismo na luta contra a desordem climática é como ignorar o fast food na luta contra a obesidade. Esqueça acabar com o carvão sujo ou com dutos de gás natural. Como o relatório do WPF indica, o veganismo oferece a única e mais efetiva forma de reduzir a mudança climática global.

A evidência é poderosa. Comer uma dieta vegana, de acordo com o estudo, é sete vezes mais eficaz em reduzir emissões do que comer uma dieta local a base de carnes. Uma dieta vegana global (de culturas convencionais) reduziria emissões de dieta em 87 por cento, comparado a míseros 8 por cento de “carne sustentável e laticínios”. Na luz do fato de que o impacto ambiental total da pecuária é maior que a queima de carvão, o gás natural e o petróleo, esse corte de 87 por cento (94 por cento se as plantas fossem cultivadas organicamente) chegaria bem perto de colocar 350.org fora de funcionamento, o que eu tenho certeza que faria McKibben um cara feliz.

Há muito mais a considerar. Muitos consumidores pensam que podem substituir galinha por bife e fazer uma diferença considerável na sua pegada dietética. Nem tanto. De acordo com um estudo de 2010 citado no relatório da WPF, tal substituição conseguiria uma “redução em rede do impacto ambiental” de 5 a 13 por cento. Quando se trata de diminuir os custos de uma mudança climática branda, o estudo mostra que uma dieta isenta de ruminantes reduziria os custos do combate à mudança climática em torno de 50 por cento; uma dieta vegana faria isso em torno de 80 por cento. Globalmente, o ponto se apresenta bastante forte: o veganismo global faria mais do que qualquer outra ação para reduzir as emissões dos GEE (gases do efeito estufa).

Então por que o 350.org me diz (em um email) que, enquanto está “bastante claro” que comer menos carne é uma boa idéia, “nós não tomamos de fato instâncias oficiais em questões como veganismo”? E por que raios não?! Por que uma organização ambiental comprometida em reduzir emissões de gases de efeito estufa não se opõe oficialmente contra a causa mais larga de emissões GEE – a produção de carne e produtos derivados? É desconcertante. E enquanto eu não tenho uma resposta definitiva, eu tenho alguns pensamentos sobre a questão.

Parte do problema é que os ambientalistas, incluindo McKibben, são geralmente agnósticos sobre a carne. Um artigo recente que McKibben escreveu para a Orion Magazine revela uma outra forma de princípio ambientalista se degenerando na questão da carne. O tom é descaracterizadamente “fofo”, até mesmo popularesco, e totalmente fora de sincronia com a gravidade das questões ambientais na estaca. Além disso, seu apelo de que “Eu não tenho uma vaca nessa luta” é uma avaliação um tanto quanto surpreendente para alguém que é tão dedicado a reduzir o aquecimento global que supostamente mantém o termostato nos 50s em todo o inverno e evita férias destinadas com medo de estourar seus créditos pessoais de carbono. Eu penso que o homem tem cada vaca do mundo nessa luta.

Então à pergunta real: como explicar esse agnosticismo? O fato de que McKibben recentemente viajou para a Casa Branca para se opor à construção de um duto de gás natural (e foi preso no processo), dá uma dica de resposta. Imagino que apanhar depois de protestar contra um massivo projeto de duto é muito melhor para o perfil da 350.org do que ficar em casa, mastigando couve, e aconselhando outros a explorar veganismo. A esse respeito, os impactos benéficos comparativos do veganismo global contra a eliminação de gás natural das areias betuminosas do Canadá não tem qualquer importância. O que importa é agarrar um título ou dois.

Daí o “problema” com veganismo e ambientalismo. Desde que Silent Spring (a exposição de Rachel Carson sobre o perigo dos inseticidas) o ambientalismo moderno tem dependido de momentos de destaque (high-profile) na mídia para fortalecer sua base militante. O veganismo, entretanto, dificilmente se presta a esse papel. Embora esteja se apoderando sutilmente à sua própria maneira, tornar-se vegano é um ato inapropriado para a publicidade sensacionalista. Oleodutos e outras brutas instrusões tecnológicas, por contraste, não são apenas grosseiramente visíveis, mas fornecem-nos (a mídia) claras vítimas, criminosos, e uma obscura narrativa de declínio. Penso que essa distinção explica muito a vacilação de McKibben – para não mencionar os movimentos ambientalistas em geral – sobre a carne.

Outra razão para o agnosticismo prevalecente na carne tem a ver com a estética comparativa dos oleodutos e pastagens. Quando ambientalistas consumidores de carne são atingidos pela problemática da pecuária, eles quase sempre respondem argumentando que devemos substituir a pecuária de confinamento pelo pastejo rotacionado. Apenas desloque os animais de fazenda aos pastos, eles dizem. Não surprendentemente, é exatamente isso o que McKibben argumenta em seu artigo Orion, dizendo que “a mudança da pecuária de confinamento para o pastejo rotacionado é uma das poucas mudanças que poderíamos fazer que está na mesma escala do problema do aquecimento global.”

Tudo isso soa muito bem. Mas se as estatísticas no relatório da WPF são confiáveis, os impactos ambientais dessa alternativa seriam mínimos. Então por que a batida frenética em apoio ao pastejo rotacionado? Eu diria que o apelo subjacente à solução do pasto é algo não apenas desmedido mas irracional: de que animais pastoreados simulariam, ainda que imperfeitamente, padrões simbióticos que existiam antes dos humanos chegarem para estragar tudo. Nesse sentido, o pastejo rotacionado apóia um dos mais sedutores (se não perigosos) mitos existentes no núcleo do ambientalismo contemporâneo: a noção de que a natureza é mais natural na ausência de seres humanos. Colocado de outra maneira, o pastejo rotacionado discursa com vigor à estética ambientalista enquanto confirma um preconceito contra os ambientes artificiais; um duto, nem tanto.

Uma última razão pela qual McKibben, 350.org, e o ambientalismo mainstream permanecem agnósticos em relação à produção de carne está na idéia da ação pessoal. Para a maioria das pessoas, carne é essencialmente algo que cozinhamos e comemos. Naturalmente, é muito mais que isso. Porém para a maioria dos consumidores, a carne é primeiramente e acima de tudo uma decisão pessoal sobre aquilo que colocamos em nosso corpo. Em contraste, o que vem à mente quando você imagina uma antiga central elétrica a base de carvão? Muitos conjurarão imagens enferrujadas de um ambiente inteiramente degradado. Com isso, as centrais de energia baseadas em carvão simbolizam não escolhas pessoais, ou uma fonte direta de prazer, mas um intrusão opressiva em nossas vidas, fazendo-nos sentir violados e impotentes. Os ambientalistas, eu portanto me arriscaria a dizer, vão atrás do carvão ao invés das vacas não porque o carvão seria necessariamente mais danoso ao ambiente (e se apresenta não ser), mas porque a vacas significam carne, e carne, não importa o quanto nefasta, significa liberdade de perseguir a felicidade.

Não pretendo minimizar o impacto desses fatores, é claro. A visibilidade dos dutos, o romântico apelo dos pastos, a crença bem assentada de que podemos comer o que bem entendermos não são obstáculos significantes a serem ultrapassados. Mas dado que o poder documentado do veganismo de confrontar diretamente o aquecimento global, e dado o fato de que as emissões tem apenas se intensificado ao longo de todos os esforços para combatê-las, eu sugeriria a McKibbens, 350.org e ao movimento ambientalista como um todo trocarem seu agnosticismo carnívoro por uma dose de fogo e enxofre de fundamentalismo vegano.

Fonte: Agnostic Carnivores and Global Warming: Why Enviros Go After Coal and Not Cows

Essa merda precisa acabar

Vídeo impactante, sobre o mundo em que vivemos. Vale a pena ver.

sábado, 1 de outubro de 2011

Do Consumo de Carne - Plutarco [Trecho I]

Do Consumo de Carne” (Ou "Sobre Comer Carne")
Título original: On The Eating of Flesh (Περὶ σαρκοφαγίας)

Tradução: Leandro Loan

Fonte (em inglês): Plutarch, Moralia (Vol. XII) - De Seu Carnium - P537
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Plutarch/Moralia/De_esu_carnium*/home.html
http://www.animal-rights-library.com/texts-c/plutarch01.htm


Introdução
por Bill Thayer

[há de se considerar que Bill Thayer em sua introdução não se aprofunda nos argumentos do texto, fazendo um análise superficial e leviana do mesmo]

Estes dois discursos mal recortados, urgindo a necessidade do vegetarianismo, são meros extratos de uma série (ver 996A) que Plutarco escreveu na sua juventude talvez a uma audiência beociana (995E). Apesar da exagerada e calculada retórica, esses fragmentos provavelmente descrevem com fidelidade um comportamento da primeira vida adulta de Plutarco, a pitagórica (ou Órfica) abstenção de alimentos de origem animal. Há poucos traços desse comportamento nas etapas posteriores, mais conhecidas por nós, embora uma passagem revisada em Symposiacs (635E) pareça dizer que, por causa de um sonho, o nosso autor absteve-se de ovos por um longo período. Em “De Sanitate Tuenda” (132A), Plutarco "desculpa" o consumo de carne no terreno onde o hábito “tornou-se uma espécie de segunda natureza não-natural.” A obra aparece, ao todo, um tanto quanto imatura ao lado de the Gryllus e De Sollertia Animalium, mas o texto é tão pobre que isso pode não ser culpa do autor. De fato, o responsável pelos cortes do texto, ao introduzir interpolações estúpidas (ver especialmente 998A) e até um trecho de um trabalho totalmente diferente (994B D), pode bem ter alterado as palavras de Plutarco em vários outros lugares onde não temos os meios para detectá-lo. Porfírio (De Abstinentia, III.24) diz que Plutarco atacou os Estóicos e os Peripatéticos em vários livros; neste próprio, a polêmica anti-estóica apenas começava (999A) quando de repente a obra se perde (desaparece). Para uma abordagem mais completa, o leitor deve voltar para os dois diálogos precedentes. Interessante notar que Shelley considerou estes dois fragmentos como sendo interessantes. No oitavo livro de Queen Mab (versos 211 ff.) nós lemos:

Não mais agora
Ele degola o cordeiro que o olha na face
E horrivelmente devora sua carne mutilada,
A qual, ainda vingando a lei ferida da Natureza,
Despertou todos os tipos de pútridos humores em seu corpo,
Todas as paixões malévolas, e toda crença em vão, . . .
Os germes da miséria, morte, doença, e crime.

A essa passagem, o poeta anexou, à sua própria maneira, uma longa nota a qual findou-se com quatro citações do nosso ensaio em grego, não traduzido (uma homenagem ao público de sua época, poder-se-ia supor). Essa nota foi subsequentemente republicada como A Vindication of Natural Diet (1813), omitindo o Grego; e no mesmo ano ele escreveu a Thomas Hogg que ele havia “traduzido dois Ensaios de Plutarco, Περὶ σαρκοφαγίας. “ Mas isso havia se perdido; Não havia, pelo menos, sido encontrados entre os materiais de Shelley não-publicados na Biblioteca de Bodleian. Este é um de dezoito trabalhos da obra recebida de Plutarco que não aparecem no Catálogo de Lamprias. Tal fato não é, entretanto, algo para ser colocado contra sua genuinidade, desde que o próprio Symposiacs não se encontra aqui.

Sobre Comer Carne: I
Ploútarkhos

[Trecho I]

1. Você me pergunta então por qual motivo Pitágoras se absteve de comer carne. Pela minha parte, imagino se por acidente ou em qual estado de mente ou espírito o primeiro homem tocou em sua boca sangue derramado, e alcançou em seus lábios a carne de uma criatura morta, ele que preparou mesas de cadáveres podres, corpos inanimados e aventurou-se em chamar de comida e alimento as partes que há pouco berraram e choraram, andaram e viveram. Como seus olhos poderiam tolerar a matança quando gargantas eram cortadas, peles esfoladas, e membros eram arrancados um por um? Como seu nariz pôde suportar o odor? Como a sordidez não ofendeu seus sentidos, que fizeram contato com a ferida alheia e sorveu a suco e a seiva de ferimentos mortais?

As peles tremeram; e sobre os espetos a carne berrou,
Tanto cozida quanto crua; a voz do gado era ouvida.

Embora isso seja uma invenção e um mito, essa dieta é verdadeiramente espantosa – quando um homem consegue desejar a criatura que ainda berra, dando instruções sobre quais animais nós devemos comer quando ainda estão procriando, e encomendando vários métodos de tempero para assá-los e servi-los em mesas. Deveríamos buscar aquele que inicialmente começou tudo isso, ao invés de buscar aquele que muito posteriormente desistiu [Pitágoras].

2. Por certo, assim como para aqueles que primeiramente se aventuraram no consumo de carne, é bastante provável que a inteira razão de seus atos foi a escassez e a necessidade de outros alimentos*; porque não é plausível que suas vidas desregradas, regadas a luxos extravagantes e infantis, ou seu capricho crescente e arbitrário através de uma excessiva variedade de provimentos, os trouxeram a tacanhos prazeres perversos, contra a Natureza. Sim, se a esse momento estivessem os seus sentidos e vozes recuperados, com certeza denotariam:

[tradução alternativa: Ou declararíamos que a razão para aquele que primeiramente instituiu ou consumo de carne foi a necessidade de sua pobreza? Não foi enquanto eles passavam seu tempo em desejos desregrados, nem quando eles tiveram suas necessidades em abundância que, após a indulgência em prazeres perversos e selvagens, recorreram a tais práticas. Se, a esse momento, estivessem os seus sentidos e vozes recuperados, certamente denotariam: (...) ]

“Oh! abençoados e amados pelos Deuses, vocês que agora vivem, mas que época do mundo a qual caíram, que compartilham e aproveitam da abundância farta das coisas boas! Que plenitude de vida brota ao seu dispor! Que videiras frutíferas apreciam! Que riqueza plena vocês tiram dos campos! Que guloseimas das árvores e plantas vocês podem colher! Podem deleitar-se e bastar a si mesmos, sem se poluírem. Enquanto que, para nós, caímos sobre a mais sombria e aterrorizante parte do tempo na qual estivemos expostos a múltiplos e inextrincáveis anseios e necessidades. Até o momento, o denso ar escondia o céu de nossa vista, e as estrelas estiveram borradas de fogo, umidade e violentos fluxos de vento. Ainda, o sol não estivera fixado a um curso certo e preciso, assim, para distinguir manhãs e noites; nem ele os trouxera à vida novamente, coroando-lhes com grinaldas das mais frutíferas safras. A terra foi também castigada pelas inundações de rios truculentos; e grande parte deformada por charcos, completamente selvagem, em decorrência de pântanos profundos, florestas inférteis e bosques. Não havia então nenhuma produção de frutas domésticas, nem quaisquer instrumentos de arte ou invenções sagazes. E a fome não daria trégua, nem existiam sementes de qualquer tipo esperando a anual temporada de semeadura. O que seria se, contrários à natureza, fizéssemos uso da carne das bestas quando até a lama era comida e as cascas de árvore eram devoradas, e quando era considerada uma coisa boa encontrar tanto um broto de grama ou a raiz de alguma planta! Mas quando eles tivessem por acaso experimentado ou comido uma bolota de carvalho, eles dançariam com grande alegria sobre essas árvores, chamando-as de “fontes da vida”, “mãe” ou “protetora”. E este foi o único festival que aqueles tempos conheceram; todo o resto era um misto de angústia e terrível tristeza. Mas que tipo de voracidade e delírio os levaram, entretanto, nos dias felizes de agora, a poluírem a si mesmos com sangue? Vocês, que tem tanta abundância de coisas necessárias à sua subsistência? Por que ultrajais a boa face da Terra como se esta fosse incapaz de lhes manter? Por que profanar o soberano criador das leis, Ceres, e envergonhar o gentil e amável Baco [Dionísio], senhor das videiras cultivadas, o gracioso, como se não eles não estivessem doando o bastante? Não estão envergonhados de misturar frutas doces com sangue e morte? Vocês chamam as serpentes, panteras e leões de animais selvagens, mas vocês mesmos, por sua própria matança infiel, não deixam qualquer espaço para ultrapassarem-vos na crueldade. O que eles matam é sua nutrição ordinária, enquanto que, para vocês, é um aperitivo, apenas.

3. Porque não comemos leões nem lobos, como forma de vingança [ou “defesa”]; porém os deixamos ir e capturamos aqueles indefesos animais domésticos, os quais não têm dentes nem ferrões para nos morder, e os assassinamos; os quais, e que Jove [Júpiter] nos ajude, a Natureza parece haver produzido apenas por sua própria beleza e graciosidade.

4. Mas nada nos desconcerta, seja a beleza de suas cores, seja o charme musical de suas vozes, seja a pureza de seus hábitos ou a discrição e incomum inteligência que podemos encontrar nesses seres; Não, por um simples pedacinho de carne, privamos uma alma do sol e da luz, e daquela proporção de vida e tempo a qual todos nascemos para desfrutar. E então fantasiamos que as vozes que proferem e nos gritam não são nada menos que sons e barulhos inarticulados, não repetidas e diversas súplicas, preces por clemência nem pedidos de misericórdia de cada um, como se estivessem nos dizendo: “Eu contesto não tua necessidade (se é que existe) mas teu desejo. Mate-me para seu sustento, mas não me arrebata por uma melhor refeição.” Ó, horrível crueldade! É uma cena terrível ver a mesa dos ricos postada à sua frente, estes, que mantém cozinheiros e garçons para fornecer-lhes cadáveres diariamente; porém é muito mais chocante ver o que se leva no final, porque a sobra é muito maior do que o ingerido. Então as bestas morreram por nada! Há outros, tão assustados pelo que foi postado à mesa, que se recusam a cortar a comida quando os pratos são servidos. Embora estejam poupando os mortos, eles não pouparam os vivos.

5. Nós declaramos, então, que é absurdo para eles dizerem que a prática de comer carne é baseada na Natureza. Porque o humano não é naturalmente carnívoro, isso é óbvio, em primeiro lugar, pela estrutura de seu corpo. O formato de um homem não é de nenhum modo similar ao das criaturas que foram feitas para comer carne: não tem bico de falcão, garras afiadas, dentes resistentes, estômago forte ou fluidos vitais quentes o suficiente para digerir e assimilar a pesada dieta da carne. É deste importante fato, a uniformidade dos nossos dentes, o tamanho das nossas bocas, a maciez de nossa língua, nossa posse de líquidos vitais tão inertes para digerir carne, que a Natureza desaprova nosso consumo dela. Se você declarar que foi naturalmente desenhado para essa dieta, então, primeiramente, mate o que irá comer. Faça isso, entretanto, apenas com seus próprios meios, sem o auxílio de clavas, facas ou machados de qualquer tipo, como lobos, ursos e leões o fazem. Então você renderá um boi com seus dentes, pegará um javali com sua boca, rasgará um cordeiro ou coelho em vários pedaços, cairá sobre ele e o comerá enquanto ainda respira, como os animais fazem. Mas se você quiser esperar que seu “alimento” morra, se você tiver escrúpulos em apreciar uma carne enquanto sua vida ainda estiver presente, por que continua, contrário à natureza, a comer o que está vivo?*

[tradução alternativa: Mas se você prefere ficar e esperar que seu alimento morra, e se
acha difícil forçar uma alma a deixar seu corpo, por que então o faz contra a natureza?]

Até quando está sem vida e apagada, no entanto, ninguém come a carne do jeito que está. Homens fervem-na e assam-na, alterando-a com o fogo e remédios, reformulando, modificando e suavizando com incontáveis condimentos, o sabor da morte para que assim o paladar possa ser enganado e aceitar o que lhe é estranho.

Certamente foi uma expressão espirituosa de um lacedemoniano, que, tendo comprado um pequeno peixe em uma estalagem, entregou a seu senhorio para ser preparado; e, assim que este pediu queijo, vinagre e óleo para fazer o molho, ele respondeu: “se eu os tivesse, não teria comprado o peixe”. Mas ficamos tão perdidos em nossa luxúria, que denominamos a carne como comida suplementar; e então precisamos de “suplementos” para a própria carne, misturando assim óleo, vinho, mel, pasta de peixe, vinagre, e temperos sírios e árabes, como se estivéssemos de fato embalsamando um cadáver para o enterro. O fato é que a carne é tão amaciada, tão dissolvida, e de um certo modo tão pré-digerida, que se torna difícil para a digestão lidar com ela; e, se a digestão perde batalha, a carne nos afeta com dores terríveis e indigestões malignas.

6. Diogenes aventurou-se a comer um polvo cru de forma a pôr fim na inconveniência de cozinhar comida. No meio de uma grande multidão, ele escondeu sua cabeça e, assim que trouxe a carne em sua boca, disse: “É por você que estou arriscando minha vida.” Deus do céu, um risco extraordinário! Assim como Pelopidas, pela liberdade dos Tebanos, e Harmódio e Aristogíton, para os Atenienses, esse filósofo arriscou sua vida lutando contra um polvo – para brutalizar nossas vidas!

Note que o consumo de carne não é apenas fisicamente contra a natureza, mas também nos faz espiritualmente grosseiros e brutos, por conta de sua saciedade e excesso. Porque é bem sabido por muitos, que o vinho e a indulgência na carne pode fazer o corpo forte e vigoroso, mas torna, entretanto, sua alma fraca e débil. E para eu não ofender os atletas, tomarei meu próprio povo como exemplo. É fato que os Atenienses costumem chamar os Beocianos de “cabeças-de-bagre”, insensíveis ou tolos, precisamente porque nos recheamos. “Esses homens são porcos”, diz Pindar. Menander nos chama de “aqueles da boca grande”; De acordo com Heráclito, “uma alma leve é mais sábia”. Jarras vazias fazem mais barulho quando estouram, mas as cheias não ressoam ao estrondo. Finos objetos de bronze passam o som de um para o outro em um círculo até que você reduza e apague o som com sua própria mão. Ainda, o olho, quando inundado com excesso de umidade, fica fraco e debilitado para sua função perfeita. Quando examinamos o sol através de uma atmosfera obscura e de neblinas de grossos vapores, não enxergamos claramente, mas, ao contrário, submerso e nebuloso, com raios elusivos. Da mesma forma, portanto, o corpo é tumultuado, entupido e sobrecarregado com comidas impróprias. O lustre e a luz da alma inevitavelmente aparecem borrados e confusos, em um aberração inconstante desde que à alma falta o brilhantismo e a intensidade para penetrar os minúsculos e complexos instantes da vida.

7. Mas apesar dessas considerações, você não encontra aqui um maravilhoso motivo para treinar a responsabilidade social? Quem poderia desestimular um ser humano quando ele se encontra tão gentil e humanamente disposto perante às outras criaturas? Há dois dias atrás, em uma discussão, citei uma expressão de Xenocrates, em que os Atenienses puniram um homem que havia acabado de esfolar um carneiro enquanto este ainda estava vivo; ainda assim, como eu penso, aquele que tortura uma criatura viva não é pior do que aquele que tira sua vida, assassinando-a. Mas, parece que somos mais sensíveis àquilo que vai contra os costumes do que o que vai contra a Natureza. Ali, então, fiz meu discurso de uma forma popular, a todos. Ainda hesito, entretanto, em iniciar uma discussão sobre o propósito ao qual sustento minha fala, princípio este grande, misterioso e incrível, como Platão diria, para as mentes comuns e mortais. Como um timoneiro hesitaria mudar seu curso em uma tempestade, ou um comediante, no momento em que tira o deus de sua máquina, hesita no meio da peça. No entanto, talvez não seja inadequado definir o tom e anunciar o tema, citando alguns versos de Empedócles. ... Com essas linhas, este quis dizer, apesar de não diretamente, que as almas humanas estão aprisionadas em corpos mortais como uma punição pela morte e o consumo da carne animal, e do canibalismo em si. Essa doutrina, entretanto, parece até ser mais antiga, como as estórias nos contam sobre o sofrimento e o desmembramento de Dionísio, os ultrajantes ataques dos Titãs sobre ele, assim como a punição a estes com jatos de raio, pelo simples fato de terem experimentado seu sangue – tudo isso é um mito pelo qual, em seu significado interior, tem a ver com renascimento. Porque, para as faculdades que, em nós, são irresponsáveis, desregradas ou violentas, e que não vêm dos deuses mas apenas dos espíritos maus, os antigos lhes deram o nome de Titãs, ou seja, aqueles que são/foram punidos e sujeitos à correção...

[continua no Trecho II]

Cientista desenvolve droga que deixa as pessoas mais compassivas

Impressionante! Cientista desenvolve droga que deixa as pessoas mais compassivas e generosas. Antes de lançar ao mercado, porém, falta uma quantidade maciça de testes a serem feitos em animais como ratos, coelhos, cachorros e macacos. Testes de superdosagem, efeitos colaterais, toxicidade, etc.


A notícia acima é fictícia, porém, seria uma espécie de ativismo interessante. Drogas que trabalhem a empatia. Mas aí entraríamos nas velhas questões sociais do Mundo Novo. De onde vem a compaixão?

No conto "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, as pessoas das sociedades modernas eram manipuladas fisica e psicologicamente desde a gestação, de uma forma extremamente invasiva, mas que, para a época, era considerada normal. Já estamos caminhando para isso, lentamente.

Caminhamos conscientemente?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Entrevista: Como lidar com o cliente que não quer pagar pelo serviço

Por Millor

Considerando o sucesso da tirinha A dura realidade de quem presta serviços, imagino que muitos dos nossos leitores sofrem com os pedidos de pessoas que querem seu serviço, mas não estão dispostas a pagar por isso, como se o prestador do serviço não tivesse contas a pagar.

Se você também está nesse barco, tenho uma ótima notícia: surgiu um paladino para nos salvar! Dono de uma ironia e sagacidade de dar inveja, Di Vasca é um ilustrador que decidiu publicar e-mails trocados com pessoas que querem que ele trabalhe de graça.

Apesar da minha história favorita ser a do cara que queria pagar em divulgação, já li o blog inteiro e recomendo demais que você faça o mesmo: http://divasca.blogspot.com/

Confira abaixo a entrevista.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Et, casa, telefone

Hoje em uma lista de email escutei uma pessoa dizer que não entende o porquê de uma revista de renome publicar uma frase do seguinte tipo "Se os animais tem interesses e direitos, porque os vegetais não deveriam ter?" em uma matéria inteiramente dedicada ao vegetarianismo. Eu respondo:

Porque são loucos, querendo comp(a)rar um macaco a uma banana, um tomate a um cachorro e um elefante a uma cenoura, que não sente, não têm cérebro, nem olhos para ver. Aliás, esse tipo de argumento é a banana que dão aos macacos pra estes não ficarem raivosos quando terminarem de fazer sua leitura. É o argumento rolha, pra fechar a discussão e não deixar o outro sem nada a dizer, nem mesmo reclamar. As revistas têm que ser imparciais, assim como os seriados de televisão, por mais diferentes que sejam. Sempre há diplomacia, por mais que isto às vezes seja impossível. No fundo não é uma loucura, mas uma razão exacerbada, se for ver. Tô diplomatando.

Não li a matéria, mas entrei no link e li a primeira página. O Diretor de Redação, logo no editorial, quis fazer uma média no final pra embelezar o papo. "Há filósofos que sugerem que imoral é não encarar a realidade tal como ela é". Ele pode ter sido vago demais nessa frase, dando margem a interpretações perversas, do tipo: por que negar a realidade tal como ela é? violenta, caótica e prática. Imoral não [é querer manter a realidade, mas não] aceitar a realidade como ela é. Tudo bem, existe a interpretação de que "para sair é preciso entrar", e de que, para dialogarmos com o outro, primeiro precisamos aprender sua língua ou fazê-lo entender a nossa, mas, para ter esse sentido, precisaria de um "também" antes do "é", ali. Há filósofos que sugerem que imoral [também] é não encarar a realidade tal como ela é.

Isso é apenas a análise de uma frase dentre tantas outras que visam deixar a matéria imparcial e agradável a todos, por mais que isso fique confuso e desleal, por diversas vezes. Pegue a crítica à agricultura [como tantos adoram criticar quando a pecuária é questionada]. Criticam a agricultura dizendo que esta também esgota recursos naturais, como se isso fosse argumento para justificar os diversos males da pecuária, no mundo. E o que nos sugerem, depois? Comer vento? Apelação argumentativa, apenas. De alguma coisa nós precisamos comer, e é claro que será da agricultura. Não da luz, nem do vento - muito menos dos animais.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Filme "Dúvida" (trecho) - Maledicência - Fofoca - Inveja

Muito bom sermão, apesar de que nunca serei católico, cristão, espírita, muçulmano, judeu, hindu, rastafari, parsista ou candomblecista. Eu tenho vontade de cuspir quando vejo/ouço gente fofoqueira. Aliás, tenho asco por vários tipos de comportamento humano. E, sim, eu não sou perfeito.



Penas por toda parte, padre.

Penso que este conto poderia ser atualizado para uma época mais "recente", com travesseiros produzidos sem crueldade animal, ou, sem ter pena de animais, porém respeito, empatia e compaixão. Creio que existem outros processos menos exploratórios, ainda assim exploratórios. As religiões poderiam se atualizar também, por que não?



Fonte: Por sus plumas

sábado, 30 de julho de 2011

Morrissey, o turkey da vez

‎"Não quero falar com bandeirantes."

Morrissey, ex-cantor do grupo britânico The Smiths, provocou polêmica ao declarar que os ataques recentes da Noruega não seriam "nada comparados ao que acontece todos os dias no McDonald's e Kentucky Fried Shit.". A declaração completa foi: "Todos nós vivemos em um mundo de assassinato, como os eventos na Noruega nos mostraram, com 97 mortos [sic]. Mas isso não é nada comparado ao que acontece no McDonald's e Kentucky Fried Shit [Chicken] todos os dias". Logo após, cantou a música "Meat Is Murder".

Depois da declaração, instantaneamente virou alvo das manchetes mundiais, que o acusaram de radical, irresponsável, entre outros adjetivos. No entanto, para alguns, a informação foi verdadeira, apesar da forma como foi dita. O sofrimento causado pela indústria animal é imenso - se for comparado a fundo e a "olho" com outras práticas humanas. Para outros, embora, continuou sendo chocante e ofensiva. Pois, afinal, são vidas humanas, diferentes de animais não-humanos, que "foram feitos" para serem mortos, na opinião da maioria das pessoas, não importa a quantidade. Animais não-humanos são apenas meros objetos de consumo, e essa é a ordem das coisas - por que questionar? Assim, Morrissey tornou-se atenção (e nova cruz) da mídia. 

A forma (neutra) com que ele se referiu aos ataques pode ser interpretado como desrespeito e oportunismo, por grande parte da população. E, de fato, aproveitou-se de uma deixa midiática. Estava com o microfone na mão e falou o que talvez muitos teriam vontade de falar. Ele não trouxe o massacre à tona. O massacre é que o trouxe, ali. O recente evento da Noruega, assim como vários outros eventos, foi e é explorado exaustivamente pelas mídias nacionais e internacionais todos os dias, em todo o planeta. Colocam fotos das famílias chorando, em capas das revistas. Colocam crianças segurando lenço, em profunda agonia. Colocam todas as privacidades expostas em zoom, pra vender o sofrimento das pessoas como se fosse um grande filme de terror. E pra quê? Por profundo respeito à vida das vítimas.

Os ataques de Morrissey, pensando bem, não são nada comparados ao que acontece diariamente na mídia. Porém Steven Morrissey é o turkey da vez.

A tempo, não coloco minha mão no fogo por ele. Nem a mão, braço ou pata de ninguém.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Hans Zimmer - Old Souls (Inception Soundtrack)

Pra quem ainda desconfia de que essa vida pode ser um grande sonho - de um sábio chinês ou de uma borboleta.

"Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade"
(Raul Seixas)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sobre a amizade

Recebi um pensamento ontem de que gostei:

"Uma relação sólida na confiança se perfaz na sinceridade (isso pode não ser tão agradável, algumas vezes, mas é fundamental). A amizade mais verdadeira é silenciosa, porém, está sempre ali, inabalável, longe dos elogios clichês e manifestações de holofotes, firme contra o tempo e distância."

Concordo, e penso que isso vale não apenas para a amizade mas para várias outras coisas. Com a ressalva de que: por mais inabalável que sejamos, ainda somos impermanentes. Até as rochas se desfazem um dia.

domingo, 3 de julho de 2011

O Mito de Sísifo e nós

O Mito de Si.sifu

O Mito de Sísifo conta a estória de um homem que fora (no pretérito imperfeito) condenado pelos deuses a rolar um grande rochedo até o topo de uma montanha até que este caísse novamente por seu próprio peso completando assim um eterno ciclo de queda e ascensão de forma a cumprir seu "terrível" destino - rolar um grande rochedo até o topo de uma montanha até que este caísse novamente por seu próprio peso completando assim um eterno ciclo de queda e ascensão... apenas por ter desafiado os deuses. Albert Camus escreveu um ensaio sobre o conto, o qual filosofou sobre a condição absurda do homem no mundo após a 2ª guerra mundial, no estranho e apocalíptico cenário europeu de 1942.

"Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias".

Uma das peripécias de Sísifo foi tentar enganar a Morte, e conseguiu - por duas vezes. Porém sua punição a um momento chegou. Em um certo sentido, como nos inpira Clarice Lispector em seu conto "Medo da Eternidade", não há como burlarmos a morte (que no sentido metafórico aqui pode significar o desfecho das coisas, a virada dos ciclos) a não ser que burlemos a si mesmos - como foi o caso de Sísifo ao receber sua sina. Clarice jogou seu chiclé porque sabia (ou soube) que esse era seu fim e, se continuasse a mastigá-lo, só estaria a enganar-se, ou então, a pregar uma peça sobre si.

A sina de Sísifo, no entanto, na visão do texto de Camus, não é de todo trágica, mas apenas uma consequência e um reflexo do mundo em que nascemos, segundo o escritor. Com um teor bastante poético, reflete sobre a condição proletária da época e a ausência da fé nos deuses antigos por parte do "homem revoltado".

"É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.


Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo."

Isso me faz lembrar do conceito taoísta de "agir sem agir", que, de certa forma, pode ser confundido com desprezo por parte de quem age. Outro conceito interessante de que me lembrei foi também a "loucura controlada", de Carlos Castaneda, importante escritor que reuniu diversos conhecimentos xamânicos antigos:

"— Pensa demais em si —- disse ele, sorrindo. — E isso lhe dá um cansaço estranho, que o leva a fechar o mundo em volta de si e se agarrar a seus argumentos. Por isso, só tem problemas. Também sou apenas um homem, mas não digo isso do mesmo jeito que você.
— Como é que o diz?
— Venci meus problemas. É uma pena que minha vida seja tão curta que eu não me possa agarrar a todas as coisas de que gostaria. Mas isso não é um problema; é só uma pena.


Gostei do tom de sua declaração. Não havia nela desespero nem
autocomiseração."


"A sensação de importância faz a pessoa sentir-se pesada, desajeitada e
vaidosa. Para ser um homem de conhecimento, ela tem de ser leve e fluida."


"O meio mais eficaz de se viver é como guerreiro: preocupar-se e pensar antes de tomar qualquer decisão, porém, uma vez tomada, seguir seu caminho, livre de preocupações e pensamentos."


"Para sermos guerreiros, devemos estar, antes de tudo, conscientes de nossa morte. Também é necessário o desprendimento. Assim, a idéia da morte iminente, em vez de se tornar uma obsessão torna-se uma indiferença."


"O guerreiro, que é desprendido, e sabe que não pode evitar sua morte, só se apóia no poder de suas decisões; é o senhor de suas opções e compreende que elas são sua responsabilidade, não tendo tempo para remorsos ou recriminações."


"Com a consciência de sua morte, com seu desprendimento e com o poder de suas decisões, um guerreiro organiza sua vida de maneira estratégica. Assim ele executa tudo o que precisa com vontade e eficiência e adquire paciência, que é condição para o caminho da vontade."


"Um guerreiro evita conversas internas. Ele escuta o mundo; os sons do mundo." [...] "Temos que usar os ouvidos para aliviar a carga dos olhos."


"É preciso insistir muito, mesmo sabendo que o que se está fazendo é inútil. Mas primeiro temos que saber que nossos atos são inúteis, e, no entanto, temos que proceder como se não soubéssemos. É esta a loucura controlada de um feiticeiro."



"Um guerreiro escolhe um caminho com coração, qualquer caminho com coração, e o segue; e então ele se regozija e ri. Ele sabe por que vê que sua vida estará terminada muito depressa. Ele vê que nada é mais importante do que qualquer outra coisa."


"As coisas que as pessoas fazem não podem ser de jeito algum mais importantes do que o mundo. E assim um guerreiro trata o mundo como um mistério sem fim e o que as pessoas fazem como uma loucura sem fim."


"Como nada é mais importante do qualquer outra coisa, um guerreiro escolhe qualquer ato e age como se lhe importasse. Sua Loucura Controlada o faz dizer que o que ele faz importa e o faz agir como se importasse, e contudo ele sabe que não é assim; de modo que, quando completa seus atos, ele se retira em paz e quer seus atos tenham sido bons ou maus, dado certo ou não, isso absolutamente não o preocupa mais."

A esse momento, Camus poderia continuar de onde parou, dialogando com Castaneda:

"[...] Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.


Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.


Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar."

E continua...

Nesse caminho de pedras, a "única" via que temos, de fato, é aproveitarmos o tempo e os momentos aos quais fomos agraciados, sendo felizes com o agora, unindo o passado, o futuro e o presente. Mais um clichê que descolorirá.

"Tristeza não tem fim, felicidade sim." (Vinicius de Moraes)

Links:

O Mito de Sísifo
O Mito de Sísifo e os dias atuais
O Tigre e o Morango
Isso também passará

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Kseniya Simonova - "Got Talent" (2009)

Kseniya Simonova foi a vencedora da edição ucraniana do "Got Talent" de 2009, com uma animação sobre a invasão da Alemanha na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial. Usando apenas os dedos e uma superfície arenosa, trouxe lágrimas aos olhos de juízes e público.

‎"Foram 8 minutos maravilhosos que demonstraram um talento especial e que trouxe, através da arte, a memória viva de uma guerra que marcou gerações."

domingo, 12 de junho de 2011

Who's the freak?

Quem é a aberração? O cara que está sendo gravado ou os covardes filmando escondido?

sábado, 28 de maio de 2011

Abobrinha de galope

Fim do mundo chegou e cadê a bola de fogo? A bola bêbada pode ser espiritual.


Vejam esta imagem. Apesar de interessante, eu ainda prefiro a liberdade da esquerda e, particularmente, odeio quando fazem esse tipo de comparação. Experimentem nascer em um país onde a burca é vestimenta obrigatória nas ruas - e serem mulher. Aqui eles não enterram a mulher na areia... e o "máximo" que temos de proibidão é o Vai atolá.

A violência existe, até fora da Terra. Mas a nossa lei é igual?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

True Blood - Everything's Broken

Clássica cena da série americana "True Blood" - 9º ep. da 3º temporada - que, apesar do entretenimento, pode nos oferecer uma boa reflexão sobre como nos relacionamos com os outros animais do planeta. Como o velho Ben Parker diria: "Com grandes poderes, advém grandes responsabilidades".



Clique para assistir no youtube

No vídeo acima, o vampiro-mor diz algo do tipo à população mundial: "Nós não somos semelhantes a vocês - de forma alguma. Somos melhores e estamos no topo!" E não é isso o que fazemos diariamente aos outros animais? Leis amigáveis? Abate humanitário? Qual é a verdadeira face da sociedade?

George Carlin - Bad News (legendado)

Crítica social ao "entretenimento" da tv e do por que a vinheta do Plantão da rede Globo mexe tanto com as pessoas. Sad but true.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ziggy Marley - Black Cat

Hoje é sexta-feira 13 e um gato preto ... é apenas um gato preto. Deja vu. Hoje também é dia da Abolição da Escravatura no Brasil - pelo menos em teoria.



"When you believe in things that you don't understand, than you suffer..." (Stevie Wonder, em Superstition)

sábado, 26 de março de 2011

Milionários temporariamente constrangidos

Escutei uma frase hoje que expressa bem algo óbvio e tão velho.

"Socialism never took root in America because the poor see themselves not as an exploited proletariat, but as temporarily embarrassed millionaires."

Socialismo nunca fez raíz na América porque os pobres vêem a si mesmos não como um proletariado explorado, mas como milionários temporariamente desconcertados. -- John Steinbeck

Essa frase me lembra do filme "Eles Vivem" (Nós Dormimos). As pessoas vêem a TV (o glamour, a falsa beleza e a miséria da alma) e sintonizam-se com essa frequência sem ao menos pensar (grande). Adquirem um paradigma totalmente ilusório de tudo - de tudo o que são e o que somos - e esquecem da realidade aqui fora (ou lá dentro). A mesma tragédia acontece nas faculdades com os calouros "ingênuos" que passam por todo tipo de humilhação e estupidez pra quê? Pra nada. Apenas por pensarem que "um dia" poderão fazer o mesmo com os "seus" calouros e assim estarem "dominando" pessoas. Que espécie de pensamento doentio é esse? - que, aliás, é o da maioria das pessoas? Chefes e funcionários. Professores e alunos. Homens e mulheres; Mulheres e homens. Adultos e crianças. Humanos e animais.

Até quando? - desde quando...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Pastor com arma na Missa

Fico pensando, que tipo de educação querem dar para as crianças (se é que querem dar alguma coisa) nesse lugar? O que aprende um jovem que cresce vendo tudo isso e achando normal? Outra coisa que penso disso: esse post vai mudar alguma coisa no mundo? Eu quero mudar alguma coisa? Alguns vão rir, outros vão chorar, outros vão se indignar, no entanto muitos vão continuar fazendo a mesma e exata coisa assim como fizeram no dia anterior e sempre. E as igrejas continuarão a deitar e rolar com a alma dos fiéis e o fiel nem aí com nada, como sempre. A ponta da isca é o dinheiro, assim como a aposta é o dízimo da lotérica. Promessas de soluções fáceis e o milagre à espera. Santas chorando, probabilidades. O segredo é iludir. Ilusão é mutualismo. Todos queremos sonhar.

"O apóstolo Silvio Ribeiro, do Centro de Avivamento para as Nações, deu tiros no diabo que critica a cobrança de dízimo. No culto da Festa da Colheita em 19 de dezembro de 2010, ao receber de fieis dois revólveres de “oferta”, o pastor encenou "um ato profético" dando tiros na cabeça do diabo para quem a igreja não deveria falar em dinheiro.

“[O dinheiro] é a resposta para todas as coisas”, disse o pastor. “Diabo! Bala de fogo na tua cabeça!” O pastor também estava chateado pelo fato de o diabo ser supostamente abstêmio. Com voz gutural, disse: “O vinho -- de que você não gosta e até Jesus tomava -- alegra a vida”.
[Voz gutural... tão celestial]

O Centro de Avivamento para as Nações é uma denominação evangélica mundial. No Brasil, tem templo em Porto Alegre (RS). O apóstolo Manuel produziu o vídeo "Detonando o diabo" com as imagens da encenação. Na edição, ele introduziu som de tiros, música, animação da figura de um chifrudo e efeitos especiais."




Fonte: Paulopes

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Scriptease #56 - Ex-BBB!

Ótimo experimento social (assista até o fim!)



Lembra um pouco a estória da Roupa Nova do Rei. ou a Namorada de Aluguel.