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domingo, 25 de março de 2012

Imposição de crenças

Hoje escutei um cristão reprimir uma pessoa que questionava determinados conteúdos incoerentes da bíblia. Ele dizia que as pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem e que, se as coisas fossem como no Antigo Testamento, "não teríamos estupro, assassinatos, infidelidade, roubo, pedofilia, pornografia, maus tratos aos animais" e que, na época, "o mau era eliminado na hora". Mas era exatamente isso o que faziam os "homens de Deus" da época. Massacravam animais (até hoje), estupravam, matavam, subjugavam mulheres, crianças, seres indefesos. Roubavam, saqueavam, tudo isso em "nome de Deus". Onde está a justiça? As pessoas dizem que os não-crentes deveriam respeitar as crenças alheias, mas em primeiro lugar os crentes deveriam respeitar a inteligência e a soberania da sociedade. Se em nossa constituição não mais permitimos tantas e tantas práticas desumanas descritas no antigo e até no novo testamento, por que continuar encarando e pregando como corretas tais atitudes? Por que achar que existia um Deus que permitia todas aquelas atrocidades e depois ele mudou? Onde está a razão das pessoas? Por que tanto medo de questionar?

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Tenho vários amigos crentes, mas esse assunto é praticamente indiscutível, porque no momento que surge é prontamente censurado. Se há escolas que não respeitam o direito do cidadão de ter um Estado laico, o mínimo que deveriam fazer é ensinar várias religiões e não apenas uma. Eu não sou ateu, e penso que, se quisermos ensinar religião nas escolas e até mesmo em nosso lar, que seja demonstrado um panorama extenso das diversas religiões do mundo, com suas características e ensinamentos, porque todas têm algo a ensinar, e nenhuma é perfeita. As próprias leis mudam.

terça-feira, 13 de março de 2012

Como Intervalos de 1 Minuto Podem Melhorar Sua Saúde

Por Gretchen Reynolds

Breves rajadas de exercício podem melhorar sua saúde? 

Tradução não-oficial : Leandro Loan 

Enquanto muitos de nós querem saber o quanto de exercício realmente precisamos para ganhar saúde e aptidão física, um grupo de cientistas do Canadá está virando tudo ao avesso e perguntando: o quão pouco de exercício precisamos? A atraente e emergente resposta parece ser, muito menos do que pensamos — desde que se esteja disposto a trabalhar um pouco.

Em prova dessa idéia, pesquisadores da Universidade McMaster em Hamilton, Ontario, recentemente coletaram vários grupos de voluntários. Um consistia de sedentários mas geralmente homens e mulheres saudáveis de meia idade. Outro era composto de pacientes mais velhos e de meia idade que haviam sido diagnosticados com doença cardiovascular. Os pesquisadores testaram a frequência cardíaca máxima e o pico de potência de cada voluntário em uma bicicleta estacionária. Em ambos os grupos, os picos não foram, francamente, tão altos; todos os voluntários estavam fora de forma e, no caso dos pacientes cardíacos, indispostos. Mas eles corajosamente concordaram em realizar um programa recém-concebido de intervalos cíclicos.

A maioria de nós já escutou sobre intervalos, ou sobre rajadas de atividade extenuante, repetidas, curtas e afiadas, intercaladas entre períodos de descanso. Quase todos os atletas competidores empregam uma ou duas sessões de treinamento intervalar a cada semana para melhorar sua velocidade e resistência. Mas os pesquisadores canadenses não estavam pedindo que seus voluntários borrifassem algumas poucas sessões de intervalos em suas rotinas de exercício. Ao invés disso, pediram que os grupos exercitassem apenas com intervalos.

Por anos, a Associação Americana do Coração (American Heart Association) e outras organizações têm recomendado que as pessoas completem 30 minutos ou mais de exercícios moderados contínuos, tais como caminhada rápida, cinco vezes por semana, para uma boa saúde. Mas milhões de americanos não se engajam nesse tanto de exercício moderado, ou nem mesmo completam um que seja. Perguntados por quê, a maioria, de pesquisa a pesquisa, dizem: “Eu não tenho tempo.”

Intervalos, entretanto, requerem pouco tempo. Eles são, por definição, curtos. Mas se as pessoas podem tolerar intervalos, e se, por sua vez, intervalos providenciam os mesmos benefícios que longos exercícios, mais práticas moderadas de resistência são tópicos que ainda não foram investigados suficientemente.
Há muitos anos atrás, os cientistas de McMaster testaram um treinamento punitivo, conhecido como treinamento intervalado de alta intensidade, ou HIIT (high-intensity interval training), que envolvia 30 segundos de esforço máximo de 100% de uma pessoa na máxima freqüência cardíaca. Depois de seis semanas, essas sessões dilacerantes de HIIT produziram mudanças fisiológicas similares nos músculos da perna de homens jovens assim como sessões de uma hora por semana de ciclismo estacionário, mesmo que os treinos de HIIT envolvessem 90% a menos de tempo de exercício.

Reconhecendo, entretanto, que poucos de nós corajosamente conseguem ou praticarão tal esforço desgastante, os pesquisadores também desenvolveram uma forma suave mas também abreviada de HIIT. Esta rotina modificada envolvia um minuto de esforço extenuante, em torno de 90% da freqüência cardíaca máxima de uma pessoa (o que a maioria de nós consegue estimar, de forma rude, subtraindo nossa idade de 220), seguida por um minuto de recuperação fácil. O esforço e a recuperação são repetidos 10 vezes, em um total de 20 minutos.

Apesar de compromisso curto desse programa modificado, depois de várias semanas de prática, ambos voluntários, tanto os fora de forma quando os cardíacos, mostraram melhoras significativas na sua saúde e aptidão. Os resultados, recém publicados em uma pesquisa de revisão relacionada com a HIIT, foram especialmente notáveis nos pacientes cardíacos. Eles mostraram “melhoras significativas” no funcionamento das veias sanguíneas e coração, disse Maureen MacDonald, uma professora de cinesiologia da McMaster que está liderando o experimento.

Pode parecer contra-intuitivo que exercícios extenuantes sejam produtivos ou até mesmo prudentes para pacientes cardíacos. Mas até agora nenhum deles apresentou problemas cardíacos relacionados a esforço, disse Drª MacDonald. “Parece que o coração é protegido da intensidade” dos intervalos, ela disse, “porque o esforço é curto”.

Quase tão surpreendente, os pacientes cardíacos abraçaram a rotina. Apesar de suas avaliações de percepção de esforço, ou do senso de desconforto de cada intervalo individual, serem altos e provavelmente precisos, beirando um 7 ou mais em uma escala de 10, eles relatam estarem gostando das sessões, ao invés de exercícios moderados, longos e contínuos, disse a doutora.

“O trabalho duro é curto,” ela aponta, “então é tolerável”. Membros de um grupo separado de exercício de controle no centro de reabilitação inscritos para completar 30 minutos de sessões comuns de exercício intenso-moderado, têm assistido melancolicamente os praticantes de intervalos saírem do laboratório antes deles. “Eles querem trocar de grupos”, ela disse.

Os cientistas notaram outros benefícios em estudos anteriores. Em adultos de meia idade fora de forma mas também saudáveis, dua semanas de treinamento HIIT propiciou a criação de mais proteínas celulares envolvidas na produção de energia e oxigênio. O treinamento também melhorou a sensibilidade à insulina e a regulagem de açúcar no sangue dos voluntários, abaixando o risco de desenvolverem diabetes tipo 2, de acordo com um estudo publicado no último outono na revista Medicine & Science, dentro de Sports & Exercise.

Desde então, os cientistas completaram um breve experimento envolvendo pessoas com diabetes 2 em estágio avançado. Eles descobriram que uma simples sessão de HIIT de 1 minuto hard e 1 minuto easy, repetidos 10 vezes, melhorou a regulação de açúcar no sangue durante o dia inteiro, particularmente depois das refeições.

É claro, o treinamento HIIT não é ideal nem mesmo necessário a todos, disse Martin Gibala, um professor de cinesiologia na McMaster, que está supervisionando os estudos de alta intensidade. “Se você tiver tempo” para 30 minutos ou mais de exercícios regulares de resistência, “então, por todos os meios, continue”, ele disse. “Há um impressionante corpo científico mostrando” que tais esforços “são muito eficazes em melhorar a saúde e a boa forma.”

Mas se as restrições de tempo o mantém longe dos exercícios prolongados, ele continua, consulte seu doutor para mais orientação, e então considere rapidamente pedalar uma bicicleta ergométrica ou fazer uphill sprint (correr pra cima) por um minuto, almejando alcançar uma freqüência cardíaca em torno de 90 por cento do seu máximo. Pedale e corra calmamente morro abaixo (downhill) por um minuto e repita nove vezes, talvez duas vezes por semana. “É um exercício muito potente,” Dr. Gibala disse. “E então, muito rapidamente, acabou.”

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Carnívoros Agnósticos e o Aquecimento Global: Por Que Ambientalistas Vão Atrás do Carvão e Não das Vacas

Por James McWilliams
11/16/2011

Tradução: Leandro Loan

Não há uma única pessoa que fez mais para combater a mudança climática do que Bill McKibben. Através de livros densos, contribuições ubíquas em revistas e jornais, e, o mais notável, a fundação da 350.org (uma organização internacional não-lucrativa dedicada a lutar contra o aquecimento global), McKibben tem comprometido sua vida a salvar o planeta. Por toda a paixão abastecendo seus esforços, no entanto, há algo ainda estranhamente confuso em sua abordagem para reduzir emissões de gás de efeito estufa: nem ele, nem a 350.org promoverão ativamente uma dieta vegana.

Dada a natureza de nosso atual discurso sobre a mudança climática, essa omissão pode não parecer um problema. Veganos ainda são considerados uma espécie de “out there”, um grupo marginalizado de ativistas pelos direitos dos animais com pele pastosa e problemas protéicos. Entretanto, como um recente relatório do World Preservation Foundation confirmou, ignorar o veganismo na luta contra a desordem climática é como ignorar o fast food na luta contra a obesidade. Esqueça acabar com o carvão sujo ou com dutos de gás natural. Como o relatório do WPF indica, o veganismo oferece a única e mais efetiva forma de reduzir a mudança climática global.

A evidência é poderosa. Comer uma dieta vegana, de acordo com o estudo, é sete vezes mais eficaz em reduzir emissões do que comer uma dieta local a base de carnes. Uma dieta vegana global (de culturas convencionais) reduziria emissões de dieta em 87 por cento, comparado a míseros 8 por cento de “carne sustentável e laticínios”. Na luz do fato de que o impacto ambiental total da pecuária é maior que a queima de carvão, o gás natural e o petróleo, esse corte de 87 por cento (94 por cento se as plantas fossem cultivadas organicamente) chegaria bem perto de colocar 350.org fora de funcionamento, o que eu tenho certeza que faria McKibben um cara feliz.

Há muito mais a considerar. Muitos consumidores pensam que podem substituir galinha por bife e fazer uma diferença considerável na sua pegada dietética. Nem tanto. De acordo com um estudo de 2010 citado no relatório da WPF, tal substituição conseguiria uma “redução em rede do impacto ambiental” de 5 a 13 por cento. Quando se trata de diminuir os custos de uma mudança climática branda, o estudo mostra que uma dieta isenta de ruminantes reduziria os custos do combate à mudança climática em torno de 50 por cento; uma dieta vegana faria isso em torno de 80 por cento. Globalmente, o ponto se apresenta bastante forte: o veganismo global faria mais do que qualquer outra ação para reduzir as emissões dos GEE (gases do efeito estufa).

Então por que o 350.org me diz (em um email) que, enquanto está “bastante claro” que comer menos carne é uma boa idéia, “nós não tomamos de fato instâncias oficiais em questões como veganismo”? E por que raios não?! Por que uma organização ambiental comprometida em reduzir emissões de gases de efeito estufa não se opõe oficialmente contra a causa mais larga de emissões GEE – a produção de carne e produtos derivados? É desconcertante. E enquanto eu não tenho uma resposta definitiva, eu tenho alguns pensamentos sobre a questão.

Parte do problema é que os ambientalistas, incluindo McKibben, são geralmente agnósticos sobre a carne. Um artigo recente que McKibben escreveu para a Orion Magazine revela uma outra forma de princípio ambientalista se degenerando na questão da carne. O tom é descaracterizadamente “fofo”, até mesmo popularesco, e totalmente fora de sincronia com a gravidade das questões ambientais na estaca. Além disso, seu apelo de que “Eu não tenho uma vaca nessa luta” é uma avaliação um tanto quanto surpreendente para alguém que é tão dedicado a reduzir o aquecimento global que supostamente mantém o termostato nos 50s em todo o inverno e evita férias destinadas com medo de estourar seus créditos pessoais de carbono. Eu penso que o homem tem cada vaca do mundo nessa luta.

Então à pergunta real: como explicar esse agnosticismo? O fato de que McKibben recentemente viajou para a Casa Branca para se opor à construção de um duto de gás natural (e foi preso no processo), dá uma dica de resposta. Imagino que apanhar depois de protestar contra um massivo projeto de duto é muito melhor para o perfil da 350.org do que ficar em casa, mastigando couve, e aconselhando outros a explorar veganismo. A esse respeito, os impactos benéficos comparativos do veganismo global contra a eliminação de gás natural das areias betuminosas do Canadá não tem qualquer importância. O que importa é agarrar um título ou dois.

Daí o “problema” com veganismo e ambientalismo. Desde que Silent Spring (a exposição de Rachel Carson sobre o perigo dos inseticidas) o ambientalismo moderno tem dependido de momentos de destaque (high-profile) na mídia para fortalecer sua base militante. O veganismo, entretanto, dificilmente se presta a esse papel. Embora esteja se apoderando sutilmente à sua própria maneira, tornar-se vegano é um ato inapropriado para a publicidade sensacionalista. Oleodutos e outras brutas instrusões tecnológicas, por contraste, não são apenas grosseiramente visíveis, mas fornecem-nos (a mídia) claras vítimas, criminosos, e uma obscura narrativa de declínio. Penso que essa distinção explica muito a vacilação de McKibben – para não mencionar os movimentos ambientalistas em geral – sobre a carne.

Outra razão para o agnosticismo prevalecente na carne tem a ver com a estética comparativa dos oleodutos e pastagens. Quando ambientalistas consumidores de carne são atingidos pela problemática da pecuária, eles quase sempre respondem argumentando que devemos substituir a pecuária de confinamento pelo pastejo rotacionado. Apenas desloque os animais de fazenda aos pastos, eles dizem. Não surprendentemente, é exatamente isso o que McKibben argumenta em seu artigo Orion, dizendo que “a mudança da pecuária de confinamento para o pastejo rotacionado é uma das poucas mudanças que poderíamos fazer que está na mesma escala do problema do aquecimento global.”

Tudo isso soa muito bem. Mas se as estatísticas no relatório da WPF são confiáveis, os impactos ambientais dessa alternativa seriam mínimos. Então por que a batida frenética em apoio ao pastejo rotacionado? Eu diria que o apelo subjacente à solução do pasto é algo não apenas desmedido mas irracional: de que animais pastoreados simulariam, ainda que imperfeitamente, padrões simbióticos que existiam antes dos humanos chegarem para estragar tudo. Nesse sentido, o pastejo rotacionado apóia um dos mais sedutores (se não perigosos) mitos existentes no núcleo do ambientalismo contemporâneo: a noção de que a natureza é mais natural na ausência de seres humanos. Colocado de outra maneira, o pastejo rotacionado discursa com vigor à estética ambientalista enquanto confirma um preconceito contra os ambientes artificiais; um duto, nem tanto.

Uma última razão pela qual McKibben, 350.org, e o ambientalismo mainstream permanecem agnósticos em relação à produção de carne está na idéia da ação pessoal. Para a maioria das pessoas, carne é essencialmente algo que cozinhamos e comemos. Naturalmente, é muito mais que isso. Porém para a maioria dos consumidores, a carne é primeiramente e acima de tudo uma decisão pessoal sobre aquilo que colocamos em nosso corpo. Em contraste, o que vem à mente quando você imagina uma antiga central elétrica a base de carvão? Muitos conjurarão imagens enferrujadas de um ambiente inteiramente degradado. Com isso, as centrais de energia baseadas em carvão simbolizam não escolhas pessoais, ou uma fonte direta de prazer, mas um intrusão opressiva em nossas vidas, fazendo-nos sentir violados e impotentes. Os ambientalistas, eu portanto me arriscaria a dizer, vão atrás do carvão ao invés das vacas não porque o carvão seria necessariamente mais danoso ao ambiente (e se apresenta não ser), mas porque a vacas significam carne, e carne, não importa o quanto nefasta, significa liberdade de perseguir a felicidade.

Não pretendo minimizar o impacto desses fatores, é claro. A visibilidade dos dutos, o romântico apelo dos pastos, a crença bem assentada de que podemos comer o que bem entendermos não são obstáculos significantes a serem ultrapassados. Mas dado que o poder documentado do veganismo de confrontar diretamente o aquecimento global, e dado o fato de que as emissões tem apenas se intensificado ao longo de todos os esforços para combatê-las, eu sugeriria a McKibbens, 350.org e ao movimento ambientalista como um todo trocarem seu agnosticismo carnívoro por uma dose de fogo e enxofre de fundamentalismo vegano.

Fonte: Agnostic Carnivores and Global Warming: Why Enviros Go After Coal and Not Cows

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Do Consumo de Carne - Plutarco [Trecho II]

Do Consumo de Carne” (Ou "Sobre Comer Carne")
Título original: On The Eating of Flesh (Περὶ σαρκοφαγίας)

Tradução: Leandro Loan

Fonte (em inglês): Plutarch, Moralia (Vol. XII) - De Seu Carnium - P537
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Plutarch/Moralia/De_esu_carnium*/home.html
http://www.animal-rights-library.com/texts-c/plutarch01.htm



 [Trecho II]

A razão nos invoca agora com novas idéias e um novo desvelo para ingressarmos de novo em nosso discurso de ontem sobre o consumo de carne. É, de fato, uma tarefa difícil, como Cato uma vez disse, engendrar uma disputa contra a barriga dos homens, que não têm ouvidos [nem olhos], desde que a maioria já bebeu daquela bebida de costume, como é próprio de Circe.


Misturando dores e espasmos, truques e lágrimas;


nem é fácil retirar o anzol de comer carne, pregado como está e embebido no prazer da luxúria. E, como os Egípcios, que extraem as vísceras dos mortos e abrem seus corpos à vista do Sol e, então, jogam-nas fora como se fossem a causa de cada pecado que a pessoa cometeu, seria interessante extirparmos nossa gula e derramamento de sangue para nos purificarmos pelo resto da vida, desde que não é exatamente a nossa barriga a responsável pela corrupção da morte; somos poluídos por nossa incontinência. Ainda que, pelo amor de Deus, seja impossível nos desvencilharmos do erro porque já estamos há tempos habituados a ele, tenhamos pelo menos vergonha dos nossos atos. Que se coma por fome, não por luxúria. Que matemos um animal, mas o façamos com tristeza e piedade, nem os abusando nem os atormentando, como muitos hoje em dia estão acostumados a fazer, colocando espetos em brasa no corpo dos suínos para, com o ferro, emulsionar o sangue e, enquanto este circula pelo corpo, possa tornar a carne delicada e macia. Outros pulam sobre o úbere das porcas grávidas e os chutam, para que, quando o sangue, o leite e a coagulação estiverem misturados (que Zeus os purifique!) e os fetos estiverem ao mesmo tempo destruídos no momento do nascer, eles possam comer as partes inflamadas das criaturas. Ainda há outros que costuram os olhos de grous e cisnes, trancando-os na escuridão para serem engordados e, então, condimentam sua carne com monstruosas misturas e temperos apimentados.

2. A partir dessas práticas, é claramente evidente que não é para nutrição, necessidade ou carência, mas por mera luxúria, insolência ou gula que transformaram esse hábito desregrado em prazer. Então, como mulheres insaciáveis em busca pelo gozo, a sua lascívia experimenta de tudo, se perde, e explora toda a gama de libertinagem até que finalmente se acaba em práticas inomináveis, assim, a intemperança em comer vai além do necessário e recorre à crueldade e desordem para dar variedade ao apetite. Para os sentidos, uma vez que abandonam suas medidas naturais, simpatizam uns com os outros pelos seus destemperos, e são atraídos ao mesmo consenso e intemperança. Assim um ouvido corrompido primeiramente escutou música debochada, e as notas suaves e efeminadas que provocam toques indecentes e lascivas cócegas. Essas coisas ensinaram o olho a não se deliciar em danças pírricas, na gesticulação das mãos, ou em elegantes pantomimas, nem em estátuas e quadros refinados; mas para considerar o abate e a morte da humanidade, e as feridas e os duelos, assim como os mais suntuosos espetáculos. Deste modo, mesas desregradas são acompanhadas por copulações destemperadas, músicas desarmônicas são seguidas por vergonhosos deboches, espetáculos bárbaros acompanham canções descaradas, a insensibilidade e crueldade em direção à humanidade é seguida por exibições selvagens nas casas de teatro. Foi por esta razão que o divino Licurgo em seus Três Livros da Lei deu ordens para que as portas e arestas da casa dos homens fosse feita com serra e machado, e que nenhum outro instrumento seria trazido a qualquer outra casa. Não que intencionasse declarar guerra contra brocas e níveis, e outros instrumentos de trabalho mais refinado, mas porque ele sabia muito bem que com essas ferramentas ninguém nunca traria para sua casa um sofá dourado, e ninguém nunca tentararia trazer a um chalé pequeno mesas de prata, carpetes de púrpura ou pedras preciosas; mas, um jantar caseiro e um almoço simples devem acompanhar tal casa, mesa e copos. O início de uma dieta viciosa é seguida por toda sorte de luxúria.

Como um potro desmamado ao lado de sua mãe corre.

3. E que tipo de refeição não é cara? Aquela em que nenhum animal foi posto a morte. Devemos considerar uma alma um custo pequeno? Não chegarei a dizer que bem poderia ser a vida [reencarnada] de sua mãe, ou de seu pai, ou de um amigo ou de uma criança, como Empedocles uma vez declarou; mas daquele participante do sentimento, da visão, da escuta, da imaginação e do intelecto; que cada animal recebeu da Natureza para a aquisição do que lhe é agradável, e para a repulsa do que lhe desagrada. Considere isso você, agora, que tipo de filósofos serviriam melhor para nos humanizar e civilizar: aqueles que nos sugerem comermos nossos próprios filhos e amigos e pais e esposas, depois de sua morte, ou Pitágoras e Empédocles, que tentaram nos habituar a agir justamente com as outras criaturas do planeta? Você ridiculariza o homem que se abstém de comer uma ovelha. Mas deveríamos nos privar de rir, diriam eles, quando vemos vocês cortando pedaços de um pai morto ou de uma mãe e os enviando para amigos distantes e convidando as pessoas presentes a comerem livremente e cordialmente os restos de suas carnes? Mas talvez cometemos um pecado quando tocamos esses livros sem lavarmos nossas mãos e nossos rostos, nossos pés e nossos ouvidos – a menos, por Deus, que seja uma purificação desses próprios membros falar sobre tal assunto dessa maneira, “lavando”, como diria Platão, “a salmoura dos ouvidos de alguém com a água fresca do discurso”. Se alguém deveria comparar esses dois volumes de livros e doutrinas, o primeiro pode servir de filosofia para os Scitios e Sodianos e os Capas Negras, cujas estórias contadas por Heródoto não tiveram crédito; mas os preceitos de Pitágoras e Empédocles foram as leis para os Gregos antigos, ao longo de sua dieta de trigo..... [texto recortado]

4. Quem então foram os autores da seguinte opinião?

O primeiro a forjar a espada da estrada assassina,
E o primeiro a comer a carne de um boi no arado

Este é o caminho, sem dúvidas, no qual tiranos começaram seu trajeto de massacres sanguinolentos. Assim como, por exemplo, em Atenas, abateram inicialmente o pior dos sicofantas e, depois dele, colocaram à morte um segundo e depois um terceiro. Após isso, estando acostumados ao derramamento de sangue, pacientemente viram Niceratus, o filho de Nicias, e seu general Theramenes e Polemarchus, o filósofo, sofrerem lentamente até a morte. Da mesma forma, no começo era um animal selvagem e perigoso que era comido, então um pássaro ou peixe que tinha sua carne despedaçada. E, então, quando nossos instintos assassinos experimentaram sangue e cresceram a partir da morte dos animais selvagens, avançaram para os bois e para as ovelhas bem-comportadas, e para os galos de casa; Pouco a pouco dando aresta firme para nosso apetite insaciável, avançamos para guerras e massacres de seres humanos. Ainda, se alguém uma vez demonstrar que as almas em renascimento fazem uso de corpos comuns e que o que hoje é racional se reverte em irracional, e que o que hoje é selvagem se transforma em doméstico, e que a Natureza muda tudo e atribui novas moradas,

Vestindo almas com diferentes casacos de carne;

isso não deterá o elemento desregrado naqueles que já adotaram a doutrina de implantar indigestão e doenças em nossos corpos, e de perverter nossas almas para uma desordem ainda mais cruel e insana, assim que nos livrarmos do hábito de entreter nossos convidados ou de celebrar um casamento ou amizade a partir do derramamento de sangue?

5. Embora, se o argumento da migração das almas de corpos em corpos não for demonstrado até o ponto de completa aceitação e crença, a própria incerteza deveria nos preencher de atenção e medo. É como se, em um ataque noturno, tivesse você desembainhado sua espada e estivesse prestes a se precipitar sobre um homem caído, cujo corpo estivesse escondido sobre a própria armadura e você escutasse alguém relembrando-o que não tinha tanta certeza, mas que acreditava que a figura prostrada era do seu filho ou do seu irmão ou de seu pai ou companheiro de exército. Qual seria o melhor caminho: aprovar a falsa suspeita e poupar seu inimigo como amigo, ou negligenciar uma autoridade incerta e matar seu amigo como seu inimigo? O último caminho seria declarado como chocante.

Considere a famosa Merope na tragédia, que, levantando uma machadinha contra o próprio filho, o qual ela acreditava ser o assassino do mesmo, disse:

E este golpe que lhe dou é ainda mais custoso;

Que agitação ela causa no teatro, trazendo todos a seus pés, em horror, ao livrar-se do homem que a tenta impedir, se preparando para ferir o jovem. Agora, suponha que um homem estivesse ao seu lado dizendo: “Ataque! é seu inimigo,” e outro, do outro lado dizendo: “Espere! é seu filho”; qual seria a maior injustiça, impedir a punição de um inimigo por causa do filho, ou abater uma criança sob o impulso da raiva contra um adversário? Em um caso, no entanto, em que não é nem ódio, nem raiva, nem auto-defesa e nem medo por nós mesmos que nos induz a matar, mas o simples motivo do hedonismo, e a vítima permanece ali, sob nosso poder de escolha, com o pescoço inclinado, e um de nossos filósofos diz: “Mate-a! É apenas uma besta.” E outro clama: “Espere, e se houver uma alma de um ente querido ou de um amigo dentro dele?” – Bons deuses! Haveria o mesmo perigo se eu me recusasse a comer carne, como se eu por vontade e fé matasse meu próprio filho ou outro amigo?

6. O modo de pensar dos estóicos sobre o tema do consumo da carne é de maneira alguma igual ou coerente a eles. Por que qual é grande “tensão” entre suas barrigas e cozinhas? Por que, estes, que associam o prazer ao feminino e que o denunciam como nem sendo algo bom nem preferível, ou como nem sendo um “princípio avançado” nem algo “comensurado com a Natureza”, de uma hora para outra se tornam advogados zelosos do prazer? Seria certamente uma conseqüência racional de sua doutrina que estes, ao banir perfumes e bolos de seus banquetes, devessem ser muito mais aversos a sangue e carne. Agora, como se quisessem reduzir sua filosofia a seus próprios diários, diminuem as despesas de seus jantares em questões desnecessárias, mas a parte desumana e cruel de suas despesas não é incomodada. “É claro”, dizem eles, “nós humanos não temos nenhum pacto de justiça para com os animais irracionais”. Nem teria você, alguém poderia replicar, qualquer tipo de pacto com o perfume ou com doces exóticos, igualmente. Abstenha-se de animais também, se está expelindo tudo o que for desnecessário e inútil.

7. Vamos considerar, portanto, se devemos ou não justiça aos outros animais não-humanos; mas vamos fazê-lo sem artifícios ou sofismos, fixando nossa atenção em nossas próprias emoções, conversando como seres humanos e pesando e analisando cada questão.   . . .

[O resto do manuscrito está perdido, se um dia foi completo]


Trecho I  - Tradução: Leandro Loan

sábado, 1 de outubro de 2011

Do Consumo de Carne - Plutarco [Trecho I]

Do Consumo de Carne” (Ou "Sobre Comer Carne")
Título original: On The Eating of Flesh (Περὶ σαρκοφαγίας)

Tradução: Leandro Loan

Fonte (em inglês): Plutarch, Moralia (Vol. XII) - De Seu Carnium - P537
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Plutarch/Moralia/De_esu_carnium*/home.html
http://www.animal-rights-library.com/texts-c/plutarch01.htm


Introdução
por Bill Thayer

[há de se considerar que Bill Thayer em sua introdução não se aprofunda nos argumentos do texto, fazendo um análise superficial e leviana do mesmo]

Estes dois discursos mal recortados, urgindo a necessidade do vegetarianismo, são meros extratos de uma série (ver 996A) que Plutarco escreveu na sua juventude talvez a uma audiência beociana (995E). Apesar da exagerada e calculada retórica, esses fragmentos provavelmente descrevem com fidelidade um comportamento da primeira vida adulta de Plutarco, a pitagórica (ou Órfica) abstenção de alimentos de origem animal. Há poucos traços desse comportamento nas etapas posteriores, mais conhecidas por nós, embora uma passagem revisada em Symposiacs (635E) pareça dizer que, por causa de um sonho, o nosso autor absteve-se de ovos por um longo período. Em “De Sanitate Tuenda” (132A), Plutarco "desculpa" o consumo de carne no terreno onde o hábito “tornou-se uma espécie de segunda natureza não-natural.” A obra aparece, ao todo, um tanto quanto imatura ao lado de the Gryllus e De Sollertia Animalium, mas o texto é tão pobre que isso pode não ser culpa do autor. De fato, o responsável pelos cortes do texto, ao introduzir interpolações estúpidas (ver especialmente 998A) e até um trecho de um trabalho totalmente diferente (994B D), pode bem ter alterado as palavras de Plutarco em vários outros lugares onde não temos os meios para detectá-lo. Porfírio (De Abstinentia, III.24) diz que Plutarco atacou os Estóicos e os Peripatéticos em vários livros; neste próprio, a polêmica anti-estóica apenas começava (999A) quando de repente a obra se perde (desaparece). Para uma abordagem mais completa, o leitor deve voltar para os dois diálogos precedentes. Interessante notar que Shelley considerou estes dois fragmentos como sendo interessantes. No oitavo livro de Queen Mab (versos 211 ff.) nós lemos:

Não mais agora
Ele degola o cordeiro que o olha na face
E horrivelmente devora sua carne mutilada,
A qual, ainda vingando a lei ferida da Natureza,
Despertou todos os tipos de pútridos humores em seu corpo,
Todas as paixões malévolas, e toda crença em vão, . . .
Os germes da miséria, morte, doença, e crime.

A essa passagem, o poeta anexou, à sua própria maneira, uma longa nota a qual findou-se com quatro citações do nosso ensaio em grego, não traduzido (uma homenagem ao público de sua época, poder-se-ia supor). Essa nota foi subsequentemente republicada como A Vindication of Natural Diet (1813), omitindo o Grego; e no mesmo ano ele escreveu a Thomas Hogg que ele havia “traduzido dois Ensaios de Plutarco, Περὶ σαρκοφαγίας. “ Mas isso havia se perdido; Não havia, pelo menos, sido encontrados entre os materiais de Shelley não-publicados na Biblioteca de Bodleian. Este é um de dezoito trabalhos da obra recebida de Plutarco que não aparecem no Catálogo de Lamprias. Tal fato não é, entretanto, algo para ser colocado contra sua genuinidade, desde que o próprio Symposiacs não se encontra aqui.

Sobre Comer Carne: I
Ploútarkhos

[Trecho I]

1. Você me pergunta então por qual motivo Pitágoras se absteve de comer carne. Pela minha parte, imagino se por acidente ou em qual estado de mente ou espírito o primeiro homem tocou em sua boca sangue derramado, e alcançou em seus lábios a carne de uma criatura morta, ele que preparou mesas de cadáveres podres, corpos inanimados e aventurou-se em chamar de comida e alimento as partes que há pouco berraram e choraram, andaram e viveram. Como seus olhos poderiam tolerar a matança quando gargantas eram cortadas, peles esfoladas, e membros eram arrancados um por um? Como seu nariz pôde suportar o odor? Como a sordidez não ofendeu seus sentidos, que fizeram contato com a ferida alheia e sorveu a suco e a seiva de ferimentos mortais?

As peles tremeram; e sobre os espetos a carne berrou,
Tanto cozida quanto crua; a voz do gado era ouvida.

Embora isso seja uma invenção e um mito, essa dieta é verdadeiramente espantosa – quando um homem consegue desejar a criatura que ainda berra, dando instruções sobre quais animais nós devemos comer quando ainda estão procriando, e encomendando vários métodos de tempero para assá-los e servi-los em mesas. Deveríamos buscar aquele que inicialmente começou tudo isso, ao invés de buscar aquele que muito posteriormente desistiu [Pitágoras].

2. Por certo, assim como para aqueles que primeiramente se aventuraram no consumo de carne, é bastante provável que a inteira razão de seus atos foi a escassez e a necessidade de outros alimentos*; porque não é plausível que suas vidas desregradas, regadas a luxos extravagantes e infantis, ou seu capricho crescente e arbitrário através de uma excessiva variedade de provimentos, os trouxeram a tacanhos prazeres perversos, contra a Natureza. Sim, se a esse momento estivessem os seus sentidos e vozes recuperados, com certeza denotariam:

[tradução alternativa: Ou declararíamos que a razão para aquele que primeiramente instituiu ou consumo de carne foi a necessidade de sua pobreza? Não foi enquanto eles passavam seu tempo em desejos desregrados, nem quando eles tiveram suas necessidades em abundância que, após a indulgência em prazeres perversos e selvagens, recorreram a tais práticas. Se, a esse momento, estivessem os seus sentidos e vozes recuperados, certamente denotariam: (...) ]

“Oh! abençoados e amados pelos Deuses, vocês que agora vivem, mas que época do mundo a qual caíram, que compartilham e aproveitam da abundância farta das coisas boas! Que plenitude de vida brota ao seu dispor! Que videiras frutíferas apreciam! Que riqueza plena vocês tiram dos campos! Que guloseimas das árvores e plantas vocês podem colher! Podem deleitar-se e bastar a si mesmos, sem se poluírem. Enquanto que, para nós, caímos sobre a mais sombria e aterrorizante parte do tempo na qual estivemos expostos a múltiplos e inextrincáveis anseios e necessidades. Até o momento, o denso ar escondia o céu de nossa vista, e as estrelas estiveram borradas de fogo, umidade e violentos fluxos de vento. Ainda, o sol não estivera fixado a um curso certo e preciso, assim, para distinguir manhãs e noites; nem ele os trouxera à vida novamente, coroando-lhes com grinaldas das mais frutíferas safras. A terra foi também castigada pelas inundações de rios truculentos; e grande parte deformada por charcos, completamente selvagem, em decorrência de pântanos profundos, florestas inférteis e bosques. Não havia então nenhuma produção de frutas domésticas, nem quaisquer instrumentos de arte ou invenções sagazes. E a fome não daria trégua, nem existiam sementes de qualquer tipo esperando a anual temporada de semeadura. O que seria se, contrários à natureza, fizéssemos uso da carne das bestas quando até a lama era comida e as cascas de árvore eram devoradas, e quando era considerada uma coisa boa encontrar tanto um broto de grama ou a raiz de alguma planta! Mas quando eles tivessem por acaso experimentado ou comido uma bolota de carvalho, eles dançariam com grande alegria sobre essas árvores, chamando-as de “fontes da vida”, “mãe” ou “protetora”. E este foi o único festival que aqueles tempos conheceram; todo o resto era um misto de angústia e terrível tristeza. Mas que tipo de voracidade e delírio os levaram, entretanto, nos dias felizes de agora, a poluírem a si mesmos com sangue? Vocês, que tem tanta abundância de coisas necessárias à sua subsistência? Por que ultrajais a boa face da Terra como se esta fosse incapaz de lhes manter? Por que profanar o soberano criador das leis, Ceres, e envergonhar o gentil e amável Baco [Dionísio], senhor das videiras cultivadas, o gracioso, como se não eles não estivessem doando o bastante? Não estão envergonhados de misturar frutas doces com sangue e morte? Vocês chamam as serpentes, panteras e leões de animais selvagens, mas vocês mesmos, por sua própria matança infiel, não deixam qualquer espaço para ultrapassarem-vos na crueldade. O que eles matam é sua nutrição ordinária, enquanto que, para vocês, é um aperitivo, apenas.

3. Porque não comemos leões nem lobos, como forma de vingança [ou “defesa”]; porém os deixamos ir e capturamos aqueles indefesos animais domésticos, os quais não têm dentes nem ferrões para nos morder, e os assassinamos; os quais, e que Jove [Júpiter] nos ajude, a Natureza parece haver produzido apenas por sua própria beleza e graciosidade.

4. Mas nada nos desconcerta, seja a beleza de suas cores, seja o charme musical de suas vozes, seja a pureza de seus hábitos ou a discrição e incomum inteligência que podemos encontrar nesses seres; Não, por um simples pedacinho de carne, privamos uma alma do sol e da luz, e daquela proporção de vida e tempo a qual todos nascemos para desfrutar. E então fantasiamos que as vozes que proferem e nos gritam não são nada menos que sons e barulhos inarticulados, não repetidas e diversas súplicas, preces por clemência nem pedidos de misericórdia de cada um, como se estivessem nos dizendo: “Eu contesto não tua necessidade (se é que existe) mas teu desejo. Mate-me para seu sustento, mas não me arrebata por uma melhor refeição.” Ó, horrível crueldade! É uma cena terrível ver a mesa dos ricos postada à sua frente, estes, que mantém cozinheiros e garçons para fornecer-lhes cadáveres diariamente; porém é muito mais chocante ver o que se leva no final, porque a sobra é muito maior do que o ingerido. Então as bestas morreram por nada! Há outros, tão assustados pelo que foi postado à mesa, que se recusam a cortar a comida quando os pratos são servidos. Embora estejam poupando os mortos, eles não pouparam os vivos.

5. Nós declaramos, então, que é absurdo para eles dizerem que a prática de comer carne é baseada na Natureza. Porque o humano não é naturalmente carnívoro, isso é óbvio, em primeiro lugar, pela estrutura de seu corpo. O formato de um homem não é de nenhum modo similar ao das criaturas que foram feitas para comer carne: não tem bico de falcão, garras afiadas, dentes resistentes, estômago forte ou fluidos vitais quentes o suficiente para digerir e assimilar a pesada dieta da carne. É deste importante fato, a uniformidade dos nossos dentes, o tamanho das nossas bocas, a maciez de nossa língua, nossa posse de líquidos vitais tão inertes para digerir carne, que a Natureza desaprova nosso consumo dela. Se você declarar que foi naturalmente desenhado para essa dieta, então, primeiramente, mate o que irá comer. Faça isso, entretanto, apenas com seus próprios meios, sem o auxílio de clavas, facas ou machados de qualquer tipo, como lobos, ursos e leões o fazem. Então você renderá um boi com seus dentes, pegará um javali com sua boca, rasgará um cordeiro ou coelho em vários pedaços, cairá sobre ele e o comerá enquanto ainda respira, como os animais fazem. Mas se você quiser esperar que seu “alimento” morra, se você tiver escrúpulos em apreciar uma carne enquanto sua vida ainda estiver presente, por que continua, contrário à natureza, a comer o que está vivo?*

[tradução alternativa: Mas se você prefere ficar e esperar que seu alimento morra, e se
acha difícil forçar uma alma a deixar seu corpo, por que então o faz contra a natureza?]

Até quando está sem vida e apagada, no entanto, ninguém come a carne do jeito que está. Homens fervem-na e assam-na, alterando-a com o fogo e remédios, reformulando, modificando e suavizando com incontáveis condimentos, o sabor da morte para que assim o paladar possa ser enganado e aceitar o que lhe é estranho.

Certamente foi uma expressão espirituosa de um lacedemoniano, que, tendo comprado um pequeno peixe em uma estalagem, entregou a seu senhorio para ser preparado; e, assim que este pediu queijo, vinagre e óleo para fazer o molho, ele respondeu: “se eu os tivesse, não teria comprado o peixe”. Mas ficamos tão perdidos em nossa luxúria, que denominamos a carne como comida suplementar; e então precisamos de “suplementos” para a própria carne, misturando assim óleo, vinho, mel, pasta de peixe, vinagre, e temperos sírios e árabes, como se estivéssemos de fato embalsamando um cadáver para o enterro. O fato é que a carne é tão amaciada, tão dissolvida, e de um certo modo tão pré-digerida, que se torna difícil para a digestão lidar com ela; e, se a digestão perde batalha, a carne nos afeta com dores terríveis e indigestões malignas.

6. Diogenes aventurou-se a comer um polvo cru de forma a pôr fim na inconveniência de cozinhar comida. No meio de uma grande multidão, ele escondeu sua cabeça e, assim que trouxe a carne em sua boca, disse: “É por você que estou arriscando minha vida.” Deus do céu, um risco extraordinário! Assim como Pelopidas, pela liberdade dos Tebanos, e Harmódio e Aristogíton, para os Atenienses, esse filósofo arriscou sua vida lutando contra um polvo – para brutalizar nossas vidas!

Note que o consumo de carne não é apenas fisicamente contra a natureza, mas também nos faz espiritualmente grosseiros e brutos, por conta de sua saciedade e excesso. Porque é bem sabido por muitos, que o vinho e a indulgência na carne pode fazer o corpo forte e vigoroso, mas torna, entretanto, sua alma fraca e débil. E para eu não ofender os atletas, tomarei meu próprio povo como exemplo. É fato que os Atenienses costumem chamar os Beocianos de “cabeças-de-bagre”, insensíveis ou tolos, precisamente porque nos recheamos. “Esses homens são porcos”, diz Pindar. Menander nos chama de “aqueles da boca grande”; De acordo com Heráclito, “uma alma leve é mais sábia”. Jarras vazias fazem mais barulho quando estouram, mas as cheias não ressoam ao estrondo. Finos objetos de bronze passam o som de um para o outro em um círculo até que você reduza e apague o som com sua própria mão. Ainda, o olho, quando inundado com excesso de umidade, fica fraco e debilitado para sua função perfeita. Quando examinamos o sol através de uma atmosfera obscura e de neblinas de grossos vapores, não enxergamos claramente, mas, ao contrário, submerso e nebuloso, com raios elusivos. Da mesma forma, portanto, o corpo é tumultuado, entupido e sobrecarregado com comidas impróprias. O lustre e a luz da alma inevitavelmente aparecem borrados e confusos, em um aberração inconstante desde que à alma falta o brilhantismo e a intensidade para penetrar os minúsculos e complexos instantes da vida.

7. Mas apesar dessas considerações, você não encontra aqui um maravilhoso motivo para treinar a responsabilidade social? Quem poderia desestimular um ser humano quando ele se encontra tão gentil e humanamente disposto perante às outras criaturas? Há dois dias atrás, em uma discussão, citei uma expressão de Xenocrates, em que os Atenienses puniram um homem que havia acabado de esfolar um carneiro enquanto este ainda estava vivo; ainda assim, como eu penso, aquele que tortura uma criatura viva não é pior do que aquele que tira sua vida, assassinando-a. Mas, parece que somos mais sensíveis àquilo que vai contra os costumes do que o que vai contra a Natureza. Ali, então, fiz meu discurso de uma forma popular, a todos. Ainda hesito, entretanto, em iniciar uma discussão sobre o propósito ao qual sustento minha fala, princípio este grande, misterioso e incrível, como Platão diria, para as mentes comuns e mortais. Como um timoneiro hesitaria mudar seu curso em uma tempestade, ou um comediante, no momento em que tira o deus de sua máquina, hesita no meio da peça. No entanto, talvez não seja inadequado definir o tom e anunciar o tema, citando alguns versos de Empedócles. ... Com essas linhas, este quis dizer, apesar de não diretamente, que as almas humanas estão aprisionadas em corpos mortais como uma punição pela morte e o consumo da carne animal, e do canibalismo em si. Essa doutrina, entretanto, parece até ser mais antiga, como as estórias nos contam sobre o sofrimento e o desmembramento de Dionísio, os ultrajantes ataques dos Titãs sobre ele, assim como a punição a estes com jatos de raio, pelo simples fato de terem experimentado seu sangue – tudo isso é um mito pelo qual, em seu significado interior, tem a ver com renascimento. Porque, para as faculdades que, em nós, são irresponsáveis, desregradas ou violentas, e que não vêm dos deuses mas apenas dos espíritos maus, os antigos lhes deram o nome de Titãs, ou seja, aqueles que são/foram punidos e sujeitos à correção...

[continua no Trecho II]

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Entrevista: Como lidar com o cliente que não quer pagar pelo serviço

Por Millor

Considerando o sucesso da tirinha A dura realidade de quem presta serviços, imagino que muitos dos nossos leitores sofrem com os pedidos de pessoas que querem seu serviço, mas não estão dispostas a pagar por isso, como se o prestador do serviço não tivesse contas a pagar.

Se você também está nesse barco, tenho uma ótima notícia: surgiu um paladino para nos salvar! Dono de uma ironia e sagacidade de dar inveja, Di Vasca é um ilustrador que decidiu publicar e-mails trocados com pessoas que querem que ele trabalhe de graça.

Apesar da minha história favorita ser a do cara que queria pagar em divulgação, já li o blog inteiro e recomendo demais que você faça o mesmo: http://divasca.blogspot.com/

Confira abaixo a entrevista.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Propaganda vegana

Ontem assisti a um vídeo impressionante e que merece ser conhecido pelas pessoas, ou pelo menos algumas. Não é o melhor vídeo nem a melhor palestra a que assisti na vida - se é que me lembro da última -, mas fez-me pensar. E pra quem tem o mínimo de consciência, aliás, faz agir. Esse vídeo é uma das formas de propaganda para um estilo de vida novo e desafiador. Uma nova visão de mundo. Porque as pessoas falam tanto em preconceito - tanto - mas, quando convidadas a questionarem o próprio preconceito contra os seres mais escravizados do planeta, não o fazem. É uma realidade insana, esta. Há mais de 7 anos que sou vegetariano, sem comer carne, leite, couro, ovos ou derivados, e minha saúde está perfeita - com exames recentes. Não sou 100% vegano. Nos últimos anos, abro exceções com produtos que abrigam queijo eventualmente e ovos caipira. Porém fico meses sem comê-los, assim como posso nunca mais ingerí-los. E por quê? Para tentar diminuir uma demanda crescente e absurda que só assombra e destrói vidas animais (e humanas). Pode ser loucura minha, mas é uma opção. Se todos fizessem o mesmo, não haveria loucura. Uma pergunta que posso fazer a você, antes ou depois de assistir a este vídeo, é:

O que é natural pra você? Somos seres das cavernas? A filosofia serve apenas pra negar a filosofia? Pra que serve a filosofia?

domingo, 3 de julho de 2011

O Mito de Sísifo e nós

O Mito de Si.sifu

O Mito de Sísifo conta a estória de um homem que fora (no pretérito imperfeito) condenado pelos deuses a rolar um grande rochedo até o topo de uma montanha até que este caísse novamente por seu próprio peso completando assim um eterno ciclo de queda e ascensão de forma a cumprir seu "terrível" destino - rolar um grande rochedo até o topo de uma montanha até que este caísse novamente por seu próprio peso completando assim um eterno ciclo de queda e ascensão... apenas por ter desafiado os deuses. Albert Camus escreveu um ensaio sobre o conto, o qual filosofou sobre a condição absurda do homem no mundo após a 2ª guerra mundial, no estranho e apocalíptico cenário europeu de 1942.

"Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias".

Uma das peripécias de Sísifo foi tentar enganar a Morte, e conseguiu - por duas vezes. Porém sua punição a um momento chegou. Em um certo sentido, como nos inpira Clarice Lispector em seu conto "Medo da Eternidade", não há como burlarmos a morte (que no sentido metafórico aqui pode significar o desfecho das coisas, a virada dos ciclos) a não ser que burlemos a si mesmos - como foi o caso de Sísifo ao receber sua sina. Clarice jogou seu chiclé porque sabia (ou soube) que esse era seu fim e, se continuasse a mastigá-lo, só estaria a enganar-se, ou então, a pregar uma peça sobre si.

A sina de Sísifo, no entanto, na visão do texto de Camus, não é de todo trágica, mas apenas uma consequência e um reflexo do mundo em que nascemos, segundo o escritor. Com um teor bastante poético, reflete sobre a condição proletária da época e a ausência da fé nos deuses antigos por parte do "homem revoltado".

"É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.


Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo."

Isso me faz lembrar do conceito taoísta de "agir sem agir", que, de certa forma, pode ser confundido com desprezo por parte de quem age. Outro conceito interessante de que me lembrei foi também a "loucura controlada", de Carlos Castaneda, importante escritor que reuniu diversos conhecimentos xamânicos antigos:

"— Pensa demais em si —- disse ele, sorrindo. — E isso lhe dá um cansaço estranho, que o leva a fechar o mundo em volta de si e se agarrar a seus argumentos. Por isso, só tem problemas. Também sou apenas um homem, mas não digo isso do mesmo jeito que você.
— Como é que o diz?
— Venci meus problemas. É uma pena que minha vida seja tão curta que eu não me possa agarrar a todas as coisas de que gostaria. Mas isso não é um problema; é só uma pena.


Gostei do tom de sua declaração. Não havia nela desespero nem
autocomiseração."


"A sensação de importância faz a pessoa sentir-se pesada, desajeitada e
vaidosa. Para ser um homem de conhecimento, ela tem de ser leve e fluida."


"O meio mais eficaz de se viver é como guerreiro: preocupar-se e pensar antes de tomar qualquer decisão, porém, uma vez tomada, seguir seu caminho, livre de preocupações e pensamentos."


"Para sermos guerreiros, devemos estar, antes de tudo, conscientes de nossa morte. Também é necessário o desprendimento. Assim, a idéia da morte iminente, em vez de se tornar uma obsessão torna-se uma indiferença."


"O guerreiro, que é desprendido, e sabe que não pode evitar sua morte, só se apóia no poder de suas decisões; é o senhor de suas opções e compreende que elas são sua responsabilidade, não tendo tempo para remorsos ou recriminações."


"Com a consciência de sua morte, com seu desprendimento e com o poder de suas decisões, um guerreiro organiza sua vida de maneira estratégica. Assim ele executa tudo o que precisa com vontade e eficiência e adquire paciência, que é condição para o caminho da vontade."


"Um guerreiro evita conversas internas. Ele escuta o mundo; os sons do mundo." [...] "Temos que usar os ouvidos para aliviar a carga dos olhos."


"É preciso insistir muito, mesmo sabendo que o que se está fazendo é inútil. Mas primeiro temos que saber que nossos atos são inúteis, e, no entanto, temos que proceder como se não soubéssemos. É esta a loucura controlada de um feiticeiro."



"Um guerreiro escolhe um caminho com coração, qualquer caminho com coração, e o segue; e então ele se regozija e ri. Ele sabe por que vê que sua vida estará terminada muito depressa. Ele vê que nada é mais importante do que qualquer outra coisa."


"As coisas que as pessoas fazem não podem ser de jeito algum mais importantes do que o mundo. E assim um guerreiro trata o mundo como um mistério sem fim e o que as pessoas fazem como uma loucura sem fim."


"Como nada é mais importante do qualquer outra coisa, um guerreiro escolhe qualquer ato e age como se lhe importasse. Sua Loucura Controlada o faz dizer que o que ele faz importa e o faz agir como se importasse, e contudo ele sabe que não é assim; de modo que, quando completa seus atos, ele se retira em paz e quer seus atos tenham sido bons ou maus, dado certo ou não, isso absolutamente não o preocupa mais."

A esse momento, Camus poderia continuar de onde parou, dialogando com Castaneda:

"[...] Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.


Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.


Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar."

E continua...

Nesse caminho de pedras, a "única" via que temos, de fato, é aproveitarmos o tempo e os momentos aos quais fomos agraciados, sendo felizes com o agora, unindo o passado, o futuro e o presente. Mais um clichê que descolorirá.

"Tristeza não tem fim, felicidade sim." (Vinicius de Moraes)

Links:

O Mito de Sísifo
O Mito de Sísifo e os dias atuais
O Tigre e o Morango
Isso também passará

domingo, 29 de maio de 2011

Quem somos nozes?

Hoje li uma sentença interessante na apostila "Por uma vida melhor", cujo conteúdo foi alvo de uma grande polêmica recentemente:

"O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião."

Concordo com isso. No dia-a-dia falamos várias frases com erros de concordância e nem realizamos. A própria frase Te amo, tão popular entre nós, se fosse colocada corretamente, ficaria Amo-te. Poucos usam essa expressão. Então por que não assumirmos (esse amor) e abraçamos a língua? Para cada ocasião, usamos um dialeto diferente. Em uma entrevista de emprego (dependendo da empresa) você não vai de bermuda e chinelo. Em outros lugares, no entanto, nem entrevista tem. Porque não tem emprego. Ou porque é autônomo, é free lancer, ou faz bico.

Cada lugar é um lugar. Dependendo da prioridade, fica a seu critério agir conforme os costumes locais ou não. Na escola ensina-se a língua culta e isso é correto. Culto ao culto? Culto ao popular e popular ao culto, mas a escola da vida nunca precisou de apostila, nem de professores. Sodoma, símbolo bíblico da transgressão de valores, construiu-se sem a ajuda ou aprovação de ninguém. Como diria o popular, ensinar o padre a rezar?

O padre já sabe, no entanto alguns insistem em querer ensiná-lo. Não é o caso dessa apostila, que parece apenas ter mencionado as outras formas de se escrever.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Novas portas ainda abertas para Robby Krieger

Por Terry Roland ,7 de janeiro de 2011

Tradução não-oficial: Leandro Loan

Originalmente apresentado na edição de janeiro da San Diego Troubadour

Não sou grande fã de rankings – como em quem é o melhor grupo de todos os tempos? Sabe-se que pessoas argumentam por horas, dias e até anos sobre quem vai para onde em tal lista de artistas favoritos. Mas, se eu fosse pressionado para dar minha lista de cinco bandas de rock preferidas, the Doors estariam bem perto do topo. The Doors ocupam um lugar único no mundo  do rock. Eles parecem ter existido em seu próprio universo pelos últimos 45 anos. Em uma época da história da música em que muitos grupos chegavam em Los Angeles com resultados confusos e desaparecendo rapidamente, the Doors abriram  novos panoramas musicais encontrados no jazz, blues e rock, criando assim uma nova plataforma para futuras bandas. The Doors trouxeram uma diversidade concentrada forjada pelos seus quatro membros distintamente talentosos. Eles expandiram longas e jazzísticas jams antes de qualquer um no rock ter pensado em fazê-lo. Eles desbravaram lugares tendo o rock como performance artística em seus shows, os quais eram, por diversas vezes, imprevisivelmente ásperos e espontâneos.

Com a poética e xamânica performance de Morrison; o velho órgão de igreja convertido à psicodelia de Manzarek; e a firme, consistente e hábil percussão jazzística de Densmore; Krieger trouxe uma abordagem original à guitarra e ao talento artístico, o que faz dele um contemporâneo e parceiro de outras lendas da guitarra de nossa era, como Clapton, Hendrix e Santana. »»

sábado, 25 de setembro de 2010

Nova regra: Pessoas ricas que reclamam estar sendo vilipendiadas deveriam ser vilipendiadas

Por Bill Maher,
24 de setembro de 2010

Tradução não-oficial: Leandro Costa

Nova Regra: O próximo sujeito rico que publicamente reclamar sobre estar sendo vilipendiado
pela administração do Obama deve publicamente ser vilipendiado pela administração do Obama. É tão difícil para alguém dizer a outra pessoa o que constitui estar "rico" ou que taxa de impostos é "bastante", mas eu fiz alguns cálculos que indicam que, considerando o buraco em que esse país se encontra, se você está ganhando mais de um milhão de dólares por ano e está reclamando sobre um aumento de 3.6% na taxa, então você definitivamente é um filho da mãe ganancioso.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sakineh, uma mulher como nós

Por Martha Medeiros

Adoçantes não calóricos. Massagem com compressas de ervas quentes. Máquinas high-tech para eliminar a celulite. Modelador térmico para criar cachos naturais. Esmalte de tratamento para unhas frágeis. Clareador de manchas com ácido bio-hialurônico. Hidratante bloqueador de radicais livres. E sigo folheando uma adorável revista feminina, que nos conduz a um mundo onde tudo é lindo, glamouroso e caro, mas sonhar não custa nada, e viro mais uma página, e outra, enquanto penso: uma moça chamada Sakineh Mohammadi Ashtiani pode morrer apedrejada a qualquer momento por um suposto adultério cometido anos atrás.

Mulheres se candidatam à presidência, dirigem empresas, pedem o divórcio, viajam sozinhas, investem na sua vaidade, mas nenhuma dessas conquistas pode nos orgulhar enquanto ainda houver o costume de enterrar uma criatura no chão com apenas a cabeça de fora para que leve pedradas de diversos homens – e não podem ser pedras GG, tem que ser as de tamanho M, pois exige-se que o suplício seja longo. Que tom de gloss será conveniente para assistir ao badalado evento?

Sei que há diversas outras modalidades de desrespeito aos direitos humanos, inclusive no Brasil, mas neste momento estou vestindo a camiseta da Sakineh. Quero falar sobre o ato primitivo de se apedrejar uma mulher na cabeça até a morte. Não discuto o motivo torpe da condenação, pois nem que ela tivesse matado alguém, em vez de simplesmente ter feito sexo com alguém, seria justificativa. Não há justificativa para a brutalidade. É a lei do Irã, é a religião do Irã, é a tradição do Irã, e daí? Quando meu estômago embrulha, é sinal de que algo bem perto de mim está acontecendo. Distância só existe quando a gente racionaliza, o sentir unifica. O Irã faz parte do mundo em que eu vivo. O meu tempo e o da Sakineh são o mesmo. Somos contemporâneas. Ela não é um personagem, existe. Tem filhos. E se a mobilização internacional não surtir efeito, em breve será enterrada até a altura do busto, com os braços presos para não poder proteger o rosto.

O que dói, mais do que tudo, é reconhecer que avançamos tanto e ainda não conseguimos atingir um grau de humanidade que seja comum a todos, homens e mulheres de qualquer lugar e de qualquer crença. O que podemos fazer por Sakineh? Rezar para que ela seja enforcada, que é o plano B. Ufa, seria um alívio.

Há uma petição circulando pela internet. Acredito tanto na eficiência desses abaixo-assinados como acredito em creme antirrugas, mas volto a dizer: sonhar não custa nada. www.liberdadeparasakineh.com.br Eu já assinei. Agora vou passar meu incrível tônico de renovação celular “future solution”, pois, como qualquer mulher, adoro cuidar da minha pele.

Martha Medeiros

Fonte: ZH

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"Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias." (Albert Camus)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A origem - "The inception"

Semana passada, assisti ao filme A origem (Inception) nos cinemas. Não gostei e ainda fiquei com "raiva de quem gostou". Depois de conversar com uma pessoa e dizer-lhe o que achava, porém, eu fiquei pensando sobre a estória e no porquê da minha reação (repulsiva) a ela. "Por que mexeu comigo assim?". Primeiro porque eu havia criado uma expectativa boa, pelo tema de sonhos - que eu particularmente gosto - para no final, entretanto, essa mesma expectativa ir por água abaixo: O filme, além de cru, é cruel. Poderia ter demorado mais para ser feito, e a "moral da história" inexiste. Segundo porque, ainda assim, me fez pensar.

Já vi vários filmes de bandidos antes, em que bandidos eram protagonistas e bandidos eram "heróis", mas nunca me dei conta, outrora, de como podemos ser influenciáveis, em vários sentidos. O tema do filme é esse, por sinal. Inserção - no caso, de idéias. A diferença é que essa inserção, aqui, se dá pelo meio de sonhos. O que antes era espionagem industrial dá lugar ao implante de conceitos por intermédio de sonhos e sedativos.

DiCaprio é Dorn Cobb, um 'Extrator', um moderno ladrão de devaneios. O filme carrega uma sensação de nado sincrozinado, onde cada um executa sua parte como coreografado, mas aqui há um senso de irrealidade que faz impossível relacioná-lo (o nado) a qualquer um dos personagens. Há um bocado de perseguição de carros, grandes explosões, e fantásticos cenários e paisagens urbanas; seria mais preciso definí-las como paisagens oníricas, desde que não são encontradas no mundo real.

[...] A natureza clínica das ações desse Ewen Cameron dos dias modernos faz do simpático retrato de Cobb uma decepção, porque na vida real ele teria sido um frio clínico, impiedoso e cruel como Mengele, não um ladrão compassivo como o personagem de Humphrey Bogart, Rick Blaine, em Casablanca. (Inception Review) (ver sinopse)


Porém qual a diferença entre um sonho e realidade se, em ambas enganações, eu não tenho consciência do que está acontecendo? Estou sendo iludido e não sei que é um "sonho", de fato. Não faz "muita" diferença entre ser enganado em um sonho e na vida "real". Pensando nesse aspecto, pode-se criar um reflexo entre a realidade do "espectador" e a ficção do filme. Se eu assisto a um filme e vibro com ele, eu estou, de certa forma, vivendo-o e realizando-o. Se eu assisto a um filme de bandido e eu torço para que o bandido vença, eu vivencio a mente... de bandido. Mais assustador, ainda, é saber (ou se dar conta de) que essa mente de bandido não saiu da cartola. Saiu da cabeça. E a cabeça saiu de onde?

A psicologia já foi trabalhada em outros filmes do diretor, como Dark Knight e Batman Begins. São as cordas simpáticas que encontram ressonância nos recônditos mais profundos de nossa mente¹. O filme pode ser analisado por horas, sob(re) diversos prismas e portas - inclusive a respeito de suas falhas e clichês. Pela questão ética (talvez o principal prisma dessa crítica), o que dizer? A corrupção é sua espinha - dorsal. Mas a corrupção, no entanto, é um nome para a falta de alguma coisa, ou melhor, a deturpação de algo que existia antes. Pensando em relatividade, além da corrupção para o mal seria possível também corromper para o bem, por que não? Isso depende do ponto de vista e, de fato, faz cada vez mais sentido em um mundo com tantas notícias e desilusão. Mas o bem, ainda assim, é um rótulo, para designar a falta de mal nas coisas. No fundo, Bem e mal não existem. Ou melhor, só existem um em relação ao outro. Agora, por exemplo, ao ler esse texto, você está pensando se está sendo "bom" ou "mau"? Ler, em si mesmo, não configura um mal - ou bem. Ler não configura nada, assim como o nada configura tudo - ou, pelo menos, algo. Eu já tentei imaginar um paraíso, perfeito, mas nele não há pessoas, porque a conta não fecha. - o que faz-me crer que a Terra assemelha-se muito a um inferno ou, então, a um sonho de um sábio chinês, meio esquecido... O sonho do sonho do sonho do sonho, de várias pessoas entrelaçados.

Talvez o paraíso seja um processo. Parte de um ciclo. Uma re-conciliação. Um res-gate. Um eterno "entrar no portal" novamente. Quando se está bem, não se pensa que está bem. Quando se está no paraíso, nem conhecemos essa palavra.

É, viajei. Mas voltando à Origem: O filme, ao focar na vida do protagonista, "travestindo"-o de herói e estrela, tenta fazer o espectador esquecer-se da origem de toda a trama, assim como acontece à própria vítima da estória, que é ludibriada ao esquecer-se de que tudo aquilo é um sonho, não a realidade. O protagonista do filme é um ladrão, um invasor de mentes e segredos, que participa, juntamente com os outros personagens, de um grande plano de enganar uma pessoa. Será que com toda a ação e complexidade da trama é possível esquecer-se desse "detalhe"? Por alguns segundos ou minutos sim, porque a ação é sedutora. Os detalhes surpreendentes. Don Juan Matus, personagem dos livros de Carlos Castaneda, já alertava seu(s) discípulo(s) a não se perder nos detalhes dos sonhos, porque eles nos enganam. "A origem" bebe da mesma fonte quando apresenta cidades inteiras, construídas por um arquiteto e entregues a um sonhador².

Concluindo, antes que eu me esqueça: Se eu me enojei com o filme, enojei-me a mim mesmo. Não há como um filme ser absolutamente ruim ou bom. Depende de quem vê. Eu confrontei a face do mal. Mas o mal não está fora, está dentro.


Dois links interessantes:

¹ O cérebro reptiliano
² A arte do sonhar

sábado, 7 de agosto de 2010

A Velha Ordem Mundial

Trecho do livro “Homo Ludens”, de Johan Huizinga. Capítulo Natureza e Significado do Jogo como Fenômeno Cultural.

           [...] Reina dentro do domínio do jogo uma ordem específica e absoluta. E aqui chegamos a sua outra característica, mais positiva ainda: ele cria ordem e é ordem. Introduz na confusão da vida e na imperfeição do mundo uma perfeição temporária e limitada, exige uma ordem suprema e absoluta: a menor desobediência a esta “estraga o jogo”, privando-o de seu caráter próprio e de todo e qualquer valor. É talvez devido a esta afinidade profunda entre a ordem e o jogo que este, como assinalamos de passagem, parece estar em tão larga medida ligado ao domínio da estética. Há nele uma tendência para ser belo. Talvez este fator estético seja aquele impulso de criar formas ordenadas que penetra o jogo em todos os seus aspectos. As palavras que empregamos para designar seus elementos pertencem quase todas à estética. São as mesmas palavras com as quais procuramos descrever os efeitos da beleza: tensão, equilíbrio, compensação, contraste, variação, solução, união e desunião. O jogo lança sobre nós um feitiço: é “fascinante”, “cativante”. Está cheio das duas qualidades mais nobres que somos capazes de ver nas coisas: o ritmo e a harmonia.

           O elemento da tensão, a que acabamos de nos referir, desempenha no jogo um papel especialmente importante. Tensão significa incerteza, acaso. Há um esforço para levar o jogo até ao desenlace, o jogador quer que alguma coisa “vá” ou “saia”, pretende “ganhar” à custa de seu próprio esforço. Uma criança estendendo a mão para um brinquedo, um gatinho brincando com um novelo, uma garotinha jogando bola, todos eles procuram conseguir alguma coisa difícil, ganhar, acabar com uma tensão. O jogo é “tenso”, como se costuma dizer. É este elemento de tensão e solução que domina em todos os jogos solitários de destreza e aplicação, como os quebra-cabeças, as charadas, os jogos de armar, as paciências, o tiro ao alvo, e quanto mais estiver presente o elemento competitivo mais apaixonante se torna o jogo. Esta tensão chega ao extremo nos jogos de azar e nas competições esportivas. Embora o jogo enquanto tal esteja para além do domínio do bem e do mal, o elemento de tensão lhe confere um certo valor ético, na medida em que são postas à prova as qualidades do jogador: sua força e tenacidade, sua habilidade e coragem e, igualmente, suas capacidades espirituais, sua “lealdade”. Porque, apesar de seu ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo.

           Por sua vez, estas regras são um fator muito importante para o conceito do jogo. Todo jogo tem suas regras. São estas que determinam aquilo que “vale” dentro do mundo temporário por ele circunscrito. As regras de todos os jogos são absolutas e não permitem discussão. Uma vez, de passagem, Paul Valéry exprimiu uma idéia das mais importantes: “No que diz respeito às regras de um jogo, nenhum ceticismo é possível, pois o princípio no qual elas assentam é uma verdade apresentada como inabalável”. E não há dúvida de que a desobediência às regras implica a derrocada do mundo do jogo. O jogo acaba: O apito do árbitro quebra o feitiço e a vida “real” recomeça.

           O jogador que desrespeita ou ignora as regras é um “desmancha-prazeres”. Este, porém, difere do jogador desonesto, do batoteiro, já que o último finge jogar seriamente o jogo e aparenta reconhecer o círculo mágico. É curioso notar como os jogadores são muito mais indulgentes para com o batoteiro do que com o desmancha-prazeres; o que se deve ao fato de este último abalar o próprio mundo do jogo. Retirando-se do jogo, denuncia o caráter relativo e frágil desse mundo no qual, temporariamente, se havia encerrado com os outros. Priva o jogo da ilusão – palavra cheia de sentido e que significa, literalmente, “em jogo” (de inlusio, illudere, ou inludere). Torna-se, portanto, necessário expulsá-lo, pois ele ameaça a existência da comunidade dos jogadores. A figura do desmancha-prazeres desenha-se com mais nitidez nos jogos infantis. A pequena comunidade não procura averiguar se o desmancha-prazeres abandona o jogo por incapacidade ou por imposição alheia, ou melhor, não reconhece sua incapacidade e acusa-o de falta de audácia. Para ela, o problema da obediência e da consciência é reduzido ao do medo ao castigo. O desmancha-prazeres destrói o mundo mágico, portanto, é um covarde e precisa ser expulso. Mesmo no universo da seriedade, os hipócritas e os batoteiros sempre tiveram mais sorte do que os desmancha-prazeres: os apóstatas, os hereges, os reformadores, os profetas e os objetores de consciência.


Todavia, freqüentemente acontece que, por sua vez, os desmancha-prazeres fundam uma nova comunidade, dotada de regras próprias. Os fora da lei, os revolucionáris, os membros das sociedades secretas, os hereges de todos os tipos têm tendências fortemente associativas, se não sociáveis, e todas as suas ações são marcadas por um certo elemento lúdico.”

HUIZINGA, Johan, 1872-1945. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura / Johan Huizinga ; [tradução João Paulo Monteiro] – São Paulo : Perspectiva, 2008. – (Estudos / dirigida por J. Guinsburg). Pg. 13-15

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Guerra do México

Enviado por Míriam Leitão, Alvaro Gribel e Valéria Maniero

Coluna no Globo

No meio do deserto, ao norte do México, numa cidade onde 70% das ruas são de terra batida, seis mil pessoas já morreram assassinadas desde que começou o governo Felipe Calderón e há dez mil órfãos. Esse é o pior lado do México: Ciudad Juárez. Quem atravessa uma das três pontes chega à segunda cidade mais segura dos Estados Unidos: El Paso, Texas.

Judith Torrea é uma jornalista free lancer, nascida em Pamplona, na Espanha, mas que diz ter seu coração nesta cidade mexicana, no meio do nada. A cidade cresceu nos anos 1960 com a ida para lá das maquilladoras de automóveis. Para espanto da plateia do congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), no último fim de semana, descreveu o cotidiano intratável do lugar que ela define como o mais violento do mundo. Ontem, conversamos longamente:

— Em Ciudad Juárez o perigo é estar vivo. Só este ano já morreram assassinadas tantas pessoas quanto em todo 2008. É uma cidade pequena de 1,3 milhão de habitantes. Os dados oficiais mostram que 116 mil casas foram abandonadas e 10 mil negócios foram fechados.

Esse ambiente de fim de mundo estourou após o início da guerra decretada pelo presidente Calderón contra o tráfico de drogas. Mas o combate se concentra contra apenas um dos cinco cartéis do narcotráfico do país: o cartel Juárez. Outros têm se fortalecido, principalmente o de Sinaloa, controlado por Chapo Guzmán. No primeiro ano do governo de Vicente Fox, do mesmo PAN de Calderón, Guzmán conseguiu escapar de um presídio de segurança máxima escondido num carrinho de lavanderia.

Judith suspeita de tudo. Acha que Calderón iniciou a guerra acreditando que assim legitimaria seu poder, após eleições controversas e que dividiram o México entre ele e o candidato López Obrador, do PRD. Acha estranho que outros cartéis sejam poupados e suspeita do Exército.

— Nós ficamos sabendo dos crimes pelo mesmo sistema de comunicação que as Forças Federais usam. Apesar de sabermos dos crimes no mesmo momento que as Forças Federais, chegamos às vezes até uma hora antes ao local. Eles chegam, não ouvem as testemunhas e declaram que todos são traficantes, mesmo quando são pobres coitados que não têm nem dinheiro para o funeral.

Na semana passada, entrevistei o cientista político mexicano Jorge Castañeda, na Globonews. Ele também falou da guerra travada em Ciudad Juárez:

— Creio que foi um erro do presidente Felipe Calderón ter declarado essa guerra em 2006, sem ter capacidade policial, militar, econômica e de inteligência para ganhar essa guerra. Nunca houve uma definição da vitória. Quando se vai à guerra é preciso saber em que consiste o triunfo. O México não tem uma definição de vitória, não tem estratégia de saída e não tem força suficiente. Foi um erro.

Castañeda disse que o principal país consumidor da droga vendida pelos cartéis da Colômbia e pelos cartéis do México são os Estados Unidos e que 14 estados americanos já liberalizaram o uso terapêutico da maconha. Ele defende a liberalização como forma de destruir o negócio do tráfico de drogas:

— O México e a América Latina devem legalizar a maconha e ver o que acontece. Não podemos mantê-la na ilegalidade, quando ela está sendo legalizada nos Estados Unidos. Na Califórnia, o estado mais rico, vai haver um referendo em novembro e é muito provável que ganhe o sim.

Judith acha que se for liberalizada a maconha, os cartéis vão apenas trocar de mercadoria.

— O narcotráfico é um grande negócio para as autoridades e o poder econômico. Ele corrompe e faz fortunas. Por que não se combate a lavagem de dinheiro? E a corrupção? Está tudo ligado. Eu só acredito em políticas globais contra o narcotráfico — disse.

A jornalista usa uma imagem forte para mostrar a maior contradição:

— Do lado de cá da fronteira morrem tantos. Mas essa droga, pela qual se mata, atravessa as pontes tranquilamente, chega aos Estados Unidos e se transforma num fantasma viajante, porque ninguém a intercepta até chegar nos mercados e poder ser consumida em paz em Nova York e em outras cidades americanas.

Durante algum tempo, Judith trabalhou numa revista de celebridades em Nova York:

— Lá, vi festas em que se consumia cocaína livremente. E onde tantos viam prazer, eu, que nunca consumi droga, via apenas o sangue e os mortos dessa guerra.

O problema de Ciudad Juárez ameaça se espalhar. Hoje é uma terra sem lei, onde os jornalistas se autocensuram para continuar vivendo. O medo de que a violência se espalhe é tanto que hoje mesmo quem detesta o PRI, partido que governou o país por 70 anos, já quer que ele volte nas próximas eleições, o que será, segundo Judith, outra tragédia.

Na visão da jornalista espanhola, o que o México vive ameaça sua própria democracia:

— Hoje, o México é o país onde mais morrem jornalistas, que democracia é esta?

Judith diz que fala porque não quer que desapareça a cidade que ama. Ontem, ela entrou no Facebook e encontrou uma mensagem de uma menina de 21 anos que estava apagando seus amigos mortos da rede de relacionamentos. Já são 15 os seus mortos.

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Para assistir: Breaking Bad

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Google inside

O Google é meu pastor e nada me faltará, diz o ditado moderno. A empresa Google já conseguiu criar um invisível e poderoso império dentro de um pequeno e relativo período da história humana. Eu, particularmente, acho interessante a possibilidade de anexar, ajuntar e aglutinar informações em um canal só - ter na palma da mão o planeta inteiro ou o que, pelo menos, achamos sê-lo - porém, o que acontece quando todos esses dados ficam em um só lugar? O detentor dessas informações vira "Deus". O Pastor que cuida das ovelhas, dá-lhes comida, pasto e proteção agora é onipotente e onipresente, sabe o que cada uma pensa e desvenda seus segredos mais íntimos, entregues religiosamente na (santa) barra do confessionário.

Se conhecimento é poder, como diz o jargão, quem tem mais conhecimento tem mais domínio. Voltaire disse uma vez que se o Criador não existisse teríamos de inventá-lo, porém - Ele(a) existindo ou não - já inventamos um bem parecido. Se alguém está em tudo e em todo lugar, em tempo real, quem seria esse alguém na mitologia cristã? No Brasil, o gigante dos tentáculos tem mais poder que o Lula e que o polvo alemão juntos. Eu, particularmente, não gosto da idéia de ser monitorado ou de ter minhas escolhas facilmente rastreáveis, por mais "inofensivas" que sejam. É claro, eles podem querer apenas nosso bem (ofertando-nos produtos de acordo com nossas melhores preferências, inclusive), mas é possível sentir-se confortável com tantas câmeras? O show não pode parar, diz outro jargão ocidental, mas e quando não quisermos viver mais atrelados à roda?

Eu poderia discorrer sobre o Apocalipse, Calendário Maia, mas fica pro ano que vem ou o próximo... o importante é que, para tudo na vida, é preciso confiança. Como confiar em algo que não se vê? Ele te vê, você não O vê. Que espécie de jogo é esse, afinal? Não é um jogo, é assunto sério, de fato. Não que a seriedade não envolva jogo e vice-versa, mas... a sensação que me dá é que, ao mesmo tempo em que temos mais conforto e facilidade nas cidades, nossa liberdade e privacidade é restringida. Não falo apenas pelo número de pessoas que aumenta no planeta, mas pelo número de formas que se criam para identificá-las. Quem não deve não teme, diria outra máxima antiga, mas quem não teme deveria pelo menos estar aberto à dúvida, à desconfiança. Isso é o mínimo que podemos fazer enquanto seres críticos, no bom sentido da palavra. Entretanto, ter nossas conversas e dados "interceptados" online é um caminho inevitável e lógico no mundo da rede. Como estabelecer uma conexão sem um meio? Como estabelecer um meio sem uma conexão?

Em um mundo extrafísico, poderíamos igualmente ter nossas conversas telepáticas interceptadas pelos anjos da Matrix. Mas se eles são anjos, que proveito tirariam em escutar nossas conversas? Há coisas mais importantes para se preocupar, como a vida dos pássaros e das abelhas, por exemplo. No fundo, e a princípio, para se usufruir de um Estado é preciso confiar em seus governantes e em seus membros, declarados ou não. Confiar, ou não usar, eis a questão. Confiar ou não ser usado, eis outra. Eu confio, logo uso. Mas com o plugue sempre atrás da orelha.



Para ler:
Google: Os longos tentáculos da gigante de buscas

segunda-feira, 19 de julho de 2010

They won't go when I go - Stevie Wonder

Esta canção foi originalmente composta por Yvonne Wright, cunhada de Stevie Wonder, após um terrível acidente de carro sofrido pelo cantor em agosto de 73. Aqui vão duas versões da música, a primeira do álbum Fulfillingness First Finale, 1974, e a segunda em 2009, no Memorial de Michael Jackson. Esse post estava guardado desde o ano passado nos rascunhos do Blogger, em uma época em que eu escutava mais Stevie Wonder. Fica a letra, no entanto.

Fulfillingness First Finale (1974)


Michael Jackson Memorial (2009)


sexta-feira, 16 de julho de 2010

Cisne com uma asa só‏

Por Rogel Samuel


O Cisne branco nasceu com uma só asa.
Quando o bando começou a voar com os menores, o Cisne ficava em terra, apenas olhando o vôo sob o Céu.
Afora isso, o cisne nadava muito bem e via sua imagem na água do Lago.
Mas... um Lago só.
Os outros cisnes, conheciam outras águas.
Muitas coisas da Vida foram acontecendo com os cisnes do bando: casaram, tiveram filhos, perderam ninhadas na época da neve, sofreram nos temporais.
O cisne de uma só asa, tinha um lugar seguro perto do lago e era onde se refugiava nas tempestades e no frio. O cisne, viu morrer muitos dos companheiros e não teve coragem de fazer a corte à uma fêmea, por ter somente uma asa, assim não teve o prazer de ter uma ninhada e, como se resguardava muito, envelheceu, quando os outros cisnes, morreram.
O cisne viu passar o tempo, seu campo mudou; outras famílias de moradores vieram ali se estabelecer, e ele, o cisne, tornou-se uma figura famosa no lugar.
Tiravam muitas fotos dele, o cisne de uma asa só.
Quando o cisne morreu, ele voou para o Espaço, que pôde sobrevoar com uma asa só, e
viu-se diferente, com outro aspecto.
Dentro dele, do cisne, havia mais horizontes, pelo tempo na Terra, que ele observou; sua Alma era um Templo, onde a Pureza cultivada pela sua introspecção, sem brigas por fêmeas, o transformaram, o Cisne, Hansa na língua Sânscrita, no símbolo máximo da Evolução Santificada.

Fonte: Cisne de uma asa só

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Gostei desse conto e da forma com que foi construído, porém até hoje ainda não compreendi rótulos como "Evolução Santificada" ou "Pessoa Iluminada", pelo motivo de que: como se faz para saber o que está dentro da consciência alheia, ou, o que é preciso pra ser santo? fazer o bem? o que é o bem?